MATRIX
Um estudo arquetípico sobre a rede do pensamento condicionado
Capítulo IX
A palavra não é a coisa:
a palavra "deus" não é Deus. |
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Preste atenção nos diálogos da cena que se passa no refeitório da nave Nabucodonosor:
(...)
Tank: Prontinho, amigo. Desjejum de campeão.
Mouse: Se fechar os olhos, vai parecer que está comendo ovos.
Apoc: Ou uma tigela de catarro.
Mouse: Sabe o que isso me lembra? Trigo Gostoso. Você já comeu trigo gostoso?
Switch: Não, mas tecnicamente nem você.
Mouse: Mas é isso que falo. Exatamente... Porque você se pergunta como as máquinas sabem qual era o sabor do Trigo Gostoso? Elas podem ter errado. Talvez o verdadeiro Trigo Gostoso tivesse gosto de aveia ou atum. Você fica se perguntando. Frango, por exemplo. Talvez elas não soubessem o gosto do frango, por isso talvez o frango tenha qualquer gosto. E talvez ela...
Apoc: Cale-se.
Dozer: É uma proteína unicelular combinada com aminoácidos, vitaminas e minerais sintéticos. Tudo que o corpo precisa.
Mouse: Não tem tudo que o corpo precisa. Soube que você passou pelo programa de treinamento. Sabe, eu criei o programa.
Apoc: Lá vem.
Mouse: E o que achou dela?
Neo: De quem?
Mouse: A mulher de vestido vermelho. Eu a criei. Ela não fala muito. Mas, se você quiser conhecê-la, posso arranjar um encontro a sós.
Switch: O cafetão digital em ação.
Mouse: Não ligue para esses hipócritas, Neo. Negar os nossos impulsos é negar aquilo que faz de nós humanos.
Morfeu: Dozer, quando terminar leve-nos até a profundidade de irradiação. Vamos entrar. Vamos levar Neo para vê-la.
Neo: Ver quem?
Tank: O Oráculo.
(...) |
| Nesta cena, Matrix faz menção à limitação das palavras, ao fato de que a palavra não é a coisa. Mostra-nos a importância de compreendermos a estrutura das palavras, o sentido que damos a uma determinada palavra, e descobrir, tomando consciência da palavra, como nossa mente ficou enredada numa teia formada por elas. Isso porque, a maioria de nós, vive por fórmulas, conceitos, programas, sejam eles criados por nós ou |
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| impostos pela condicionada rede de pensamentos da sociedade, aos quais damos o nome de ideais, e que indicam a necessidade que temos de viver segundo certos padrões. Se examinarmos essas fórmulas, idéias e conceitos, veremos que não passam de palavras, e todas essas palavras controlam nossas atividades, modelam nossos pensamentos, fazem com que nos sintamos de determinada maneira. As palavras condicionam nosso pensamento, nosso ser. |
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| Nesta cena, Matrix dá a deixa de que a mente aprisionada pelas palavras é incapaz de se libertar. Funcionando segundo o padrão de uma fórmula ela estará, obviamente, condicionada, escravizada. Ela é incapaz de pensar de modo original e novo – e a maior parte de nosso pensamento, a maior parte de nossa atividade, nossos pensamentos, estão dentro dos limites das palavras e fórmulas. |
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| Tomemos uma palavra como Trigo Gostoso ou Deus. Imagens e fórmulas surgem em nossa mente. O homem que quer saber o gosto do Trigo Gostoso ou se Deus existe, deve certamente libertar-se de todos os conceitos, de todas as fórmulas. Mas como libertar-se das fórmulas e dos conceitos se a mente se recusa a romper com tudo isso por que tem medo? O medo se esconde nas palavras, e nós brigamos por causa de palavras. Assim, a primeira atitude a ser tomada pelo homem empenhado em investigar isso com seriedade, de maneira a poder descobrir se existe ou não determinada realidade, algo que seja além do alcance das palavras, é compreender plenamente as palavras e se libertar das fórmulas. Mas isso se torna imensamente difícil porque, muitos de nós facilmente se satisfazem com palavras, com explicações. Poucos são os que rompem a barreira das explicações, ultrapassando as palavras e descobrindo por si mesmos o que é verdadeiro. A capacidade é produto da aplicação, não é? Mas nós não nos aplicamos, porque nos satisfazemos com palavras, com especulações, com as tradicionais respostas e explicações com que fomos criados e por causa disso, nunca chegamos ao Real, ao eterno, “ao outro estado de ser” existente além dos limites da mente. |
| Muitos de nós se iludem com a suposição de que podem se libertar desse estado condicionado por meio da verbalização, pela limitação das palavras. A grande maioria não consegue tomar consciência da limitação da palavra, e, através da consciência dessa limitação, se libertar dela de vez. Não tomamos consciência que toda verbalização é um processo de pensamento. |
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| É possível pensar sem o uso de palavras, símbolos e imagens? É possível o findar da palavra? Em geral, somos escravos das palavras. A maioria de nós nos sentimos sós, e sabemos o que esta palavra significa, o que é esse estado de solidão. Nós o reconhecemos por meio da palavra? E se não existisse a palavra, quando tivéssemos um certo sentimento poderíamos reconhecê-lo como “solidão”? Em geral, somos tão escravos das palavras que somos incapazes de olhar o fato. |
| Há um estado de solidão; e podemos olhar esse estado sem a palavra? A palavra tem “associações”, “memórias”, por meio da palavra dá-se o reconhecimento, etc. Para olhar o fato é preciso estar-se livre da palavra. E quando olhamos o fato, sem a palavra, o fato é então o que pensávamos que era? O “dar nome”, o verbalizar, é um processo muito complexo. |
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| Quando compreendemos que a palavra não é a coisa, estamos então em contato com a coisa, não por meio da palavra, mas direta e vitalmente. E o que acontece então? O que acontece quando olhamos o sentimento sem a palavra? Enquanto passarmos pelo processo de reconhecimento, que é olhar para a coisa nova traduzindo-a nos termos do que antes existiu, é inevitável o conflito; por conseguinte, não é renovação, não há nada de novo. Isso é um fato psicológico. |
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Se penetrarmos fundo em nós mesmos, veremos tudo isso num clarão. Quando lançarmos fora a carga das palavras, ao nos libertarmos de toda estrutura de símbolos, idéias, fórmulas, programas, para olharmos diretamente a coisa em si, encontraremos rejuvenescimento, frescor; algo totalmente novo acontece. Mas veja o quanto que é difícil para as pessoas abandonarem as palavras, os símbolos, os programas; veja, por exemplo, como é difícil para um cristão abandonar o símbolo da cruz, ou a idéia de Deus. Devemos nos libertar da palavra “Deus”, afim de descobrirmos o que realmente é. |
| (Continua) |
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