Jiddu Krishnamurti
Transcrição do "capítulo X - O amor" do
livro: "Liberte-se do passado" - Editora
Cultrix
Título do original: Freedom from the Known Tradução de: Hugo Veloso
A
necessidade de segurança nas relações gera
inevitavelmente o sofrimento e o medo. Essa busca de segurança,
atrai a insegurança. Já encontrastes alguma vez segurança
em alguma de vossas relações? Já? A maioria
de nós quer a segurança de amar e ser amado, mas
existirá amor quando cada um está
a buscar a própria segurança, seu caminho próprio?
Nós não somos amados porque não sabemos amar.
Que
é o amor? Esta palavra está tão carregada
e corrompida, que quase não tenho vontade de empregá-la.
Todo o mundo fala de amor - toda a revista e jornal e todo missionário
discorre interminavelmente sobre o amor. Amo a minha pátria,
amo o prazer, amo a minha esposa, amo a Deus. O amor é uma
idéia? Se é, pode então ser cultivado, nutrido,
conservado com carinho, moldado, torcido de todas as maneiras
possíveis. Quando dizeis que amais a Deus, que significa
isso ? Significa que amais uma projeção de vossa
própria imaginação, uma projeção
de vós mesmo, revestida de certas formas de respeitabilidade,
conforme o que pensais ser nobre e sagrado; o dizer "Amo
a Deus" é
puro contra-senso. Quando adorais a Deus, estais adorando a vós
mesmo; e isso não é amor.
Incapazes, que somos, de compreender
essa coisa humana chamada amor, fugimos para as abstrações.
O amor pode ser a solução final de todas as dificuldades,
problemas e aflições humanas. Assim, como iremos
descobrir o que é o amor? Pela simples definição?
A igreja o tem definido de uma maneira, a sociedade de outra, e
há também desvios e perversões de toda a espécie.
A adoração de uma certa pessoa, o amor carnal, a
troca de emoções, o companheirismo - será isso
o que se entende por amor? Essa foi sempre a norma, o padrão,
que se tornou tão pessoal, sensual, limitado, que as religiões
declararam que o amor é muito mais do que isso. Naquilo
que denominam "amor humano", vêem elas que existe
prazer, competição, ciúme, desejo de possuir,
de conservar, de controlar, de influir no pensar de outrem e, sabendo
da complexidade dessas coisas, dizem as religiões que deve
haver outra espécie de amor - divino, belo, imaculado, incorruptível.
Em todo o mundo, certos homens chamados "santos"
sempre sustentaram que olhar para uma mulher é
pecaminoso; dizem que não podemos nos aproximar-nos de Deus
se nos entregamos ao sexo e, por conseguinte, o negam, embora eles
próprios se vejam devorados por ele. Mas, negando o sexo,
esses homens arrancam os próprios olhos, decepam a própria
língua, uma vez que estão negando toda a beleza da
Terra. Deixaram famintos os seus corações e a sua
mente; são entes humanos "desidratados"; baniram
a beleza, porque a beleza está ligada à
mulher.
Pode o amor ser dividido em sagrado e
profano, humano e divino, ou só há amor? O amor é para
um só
e não para muitos? Se digo "Amo-te", isso exclui
o amor do outro? O amor é pessoal ou impessoal? Moral ou
imoral? Familial ou não familial? Se amais a humanidade,
podeis amar o indivíduo? O amor é sentimento? Emoção
? O Amor
é prazer e desejo ? Todas essas perguntas indicam - não é verdade?
- que temos idéias a respeito do amor, idéias sobre
o que ele deve ou não deve ser, um padrão, um código
criado pela cultura em que vivemos.
Assim, para examinarmos a questão
do amor - o que é
o amor - devemos primeiramente libertar-nos das incrustações
dos séculos, lançar fora todos os ideais e ideologias
sobre o que ele deve ou não deve ser. Dividir qualquer coisa
em o que deveria ser e o que é,
é a maneira mais ilusória de enfrentar a vida.
Ora, como iremos saber o que é essa
chama que denominamos amor - não a maneira de expressá-lo
a outrem, porém o que ele próprio significa? Em primeiro
lugar rejeitarei tudo o que a igreja, a sociedade, meus pais e
amigos, todas as pessoas e todos os livros disseram a seu respeito,
porque desejo descobrir por mim mesmo o que ele é. Eis um
problema imenso, que interessa a toda humanidade; há milhares
de maneiras de defini-lo e eu próprio me vejo todo enredado
neste ou naquele padrão, conforme a coisa que, no momento,
me dá
gosto ou prazer. Por conseguinte, para compreender o amor, não
devo em primeiro lugar libertar-me de minhas inclinações
e preconceitos? Vejo-me confuso, dilacerado pelos meus próprios
desejos e, assim, digo entre mim: "Primeiro, dissipa a tua
confusão. Talvez tenhas possibilidade de descobrir o que é
amor através do que ele não é".
O governo ordena: "Vai e mata, por
amor à pátria!"
Isso é amor? A religião preceitua: "Abandona
o sexo, pelo amor de Deus". Isso é amor? O amor é desejo?
Não digas que não. Para a maioria de nós, é;
desejo acompanhado de prazer, prazer derivado dos sentidos, pelo
apego e o preenchimento sexual. Não sou contrário
ao sexo, mas vede o que ele implica. O que o sexo vos dá momentaneamente é o
total abandono de vós mesmos, mas, depois, voltais à vossa
agitação; por conseguinte, desejais a constante repetição
desse estado livre de preocupação, de problema, do "eu".
Dizeis que amais vossa esposa. Nesse amor está implicado
o prazer sexual, o prazer de terdes uma pessoa em casa para cuidar
dos filhos e cozinhar. Dependeis dela; ela vos deu o seu corpo,
suas emoções, seus incentivos, um certo sentimento
de segurança e bem-estar. Um dia, ela vos abandona; aborrece-se
ou foge com outro homem, e eis destruído todo o vosso equilíbrio
emocional; essa perturbação, de que não gostais,
chama-se ciúme. Nele existe sofrimento, ansiedade,
ódio e violência. Por conseguinte, o que realmente
estais dizendo é: "Enquanto me pertences, eu te amo;
mas, tão logo deixes de pertencer-me, começo a odiar-te.
Enquanto posso contar contigo para a satisfação de
minhas necessidades sociais e outras, amo-te, mas, tão logo
deixes de atender a minhas necessidades, não gosto mais
de ti". Há, pois, antagonismo entre ambos, há separação,
e quando vos sentis separados um do outro, não há amor.
Mas, se puderdes viver com vossa esposa sem que o pensamento crie
todos esses estados contraditórios, essas intermináveis
contendas dentro de vós mesmo, talvez então - talvez
- sabereis o que é
o amor. Sereis então completamente livre, e ela também;
ao passo que, se dela dependeis para os vossos prazeres, sois seu
escravo. Portanto, quando uma pessoa ama, deve haver liberdade
- a pessoa deve estar livre, não só da outra, mas
também de si própria.
No estado de pertencer a outro, de ser
psicologicamente nutrido por outro, de outro depender - em tudo
isso existe sempre, necessariamente, a ansiedade, o medo, o ciúme,
a culpa, e enquanto existe medo, não existe amor. A mente
que se acha nas garras do sofrimento jamais conhecerá
o amor; o sentimentalismo e a emotividade nada, absolutamente nada,
têm que ver com o amor. Por conseguinte, o amor nada tem
em comum com o prazer e o desejo.
O amor não é produto de
pensamento, que é
o passado. O pensamento não pode de modo nenhum cultivar
o amor. O amor não se deixa cercar e enredar pelo ciúme;
porque o ciúme vem do passado. O amor é sempre o
presente ativo. Não é
"amarei" ou "amei". Se conheceis o amor, não
seguireis ninguém. O amor não obedece. Quando se
ama, não há respeito nem desrespeito.
Não sabeis o que significa amar
realmente alguém - amar sem ódio, sem ciúme,
sem raiva, sem procurar interferir no que o outro faz ou pensa,
sem condenar, sem comparar - não sabeis o que isto significa?
Quando há amor, há comparação? Quando
amais alguém de todo o coração, com toda a
vossa mente, todo o vosso corpo, todo o vosso ser, existe comparação?
Quando vos abandonais completamente a esse amor, não existe "o
outro".
O amor tem responsabilidades e deveres,
e emprega tais palavras? Quando fazeis alguma coisa por dever,
há nisso amor? No dever não há amor. A estrutura
do dever, na qual o ente humano se vê aprisionado, o está destruindo.
Enquanto sois obrigado a fazer uma coisa, porque é vosso
dever fazê-la, não amais a coisa que estais fazendo.
Quando há
amor, não há dever nem responsabilidade.
A maioria dos pais, infelizmente, pensa
que são responsáveis por seus filhos, e seu senso
de responsabilidade toma a forma de preceituar-lhes o que devem
fazer e o que não devem fazer, o que devem ser e o que não
devem ser. Querem que os filhos conquistem uma posição
segura na sociedade. Aquilo a que chamam de responsabilidade faz
parte daquela respeitabilidade que eles cultivam; e a mim me parece
que, onde há respeitabilidade, não existe ordem;
só lhes interessa o tornar-se um perfeito burguês.
Preparando os filhos para se adaptarem à sociedade, estão
perpetuando a guerra, o conflito e a brutalidade. Pode-se chamar
a isso zelo e amor?
Zelar, com efeito, é cuidar como
se cuida de uma árvore ou de uma planta, regando-a, estudando
as suas necessidades, escolhendo o solo mais adequado, tratá-la
com carinho e ternura; mas, quando preparais os vossos filhos para
se adaptarem à sociedade, os estais preparando para serem
mortos. Se amásseis vossos filhos, não haveria guerras.
Quando perdeis alguém que amais,
verteis lágrimas; essas lágrimas são por vós
mesmo ou pelo morto? Estais pranteando a vós mesmo ou ao
outro? Já chorastes por outrem? Já chorastes o vosso
filho, morto no campo de batalha? Chorastes, decerto, mas essas
lágrimas foram produto de autocompaixão ou chorastes
porque um ente humano foi morto? Se chorais por autocompaixão,
vossas lágrimas nada significam, porque estais interessado
em vós mesmo. Se chorais porque vos foi arrebatada uma pessoa
em quem
"depositastes" muita afeição, não
se trata de afeição real. Se chorais a morte de vosso
irmão, chorai por ele!
É muito fácil chorardes por vós mesmo porque
ele partiu. Aparentemente, chorais porque vosso coração
foi atingido, mas não foi atingido por causa dele; foi atingido
pela autocompaixão, e a autocompaixão vos endurece,
vos fecha, vos torna embotado e estúpido.
Quando chorais por vós mesmo,
será isso amor? - chorar porque ficaste sozinho, porque
perdestes o vosso poder; queixar-vos de vossa triste sina, de vosso
ambiente - sempre vós a verter lágrimas. Se compreenderdes
esse fato, e isso significa pôr-vos em contato com ele tão
diretamente como quando tocais uma árvore ou uma coluna
ou uma mão, vereis então que o sofrimento é produto
do "eu", o sofrimento
é criado pelo pensamento, o sofrimento é
produto do tempo. Há três anos eu tinha meu irmão;
hoje ele é morto e estou sozinho, desolado, não tenho
mais a quem recorrer para ter conforto ou companhia, e isso me
traz lágrimas aos olhos.
Podeis ver tudo isso acontecer dentro
de vós mesmo, se o observardes. Podeis vê-lo de maneira
plena, completa, num relance, sem precisardes do tempo analítico.
Podeis ver num momento toda a estrutura e natureza dessa coisa
desvaliosa e insignificante, chamada "eu" - minhas lágrimas,
minha família, minha nação, minha crença,
minha religião - toda essa fealdade está
em vós. Quando a virdes com vosso coração,
e não com vossa mente, quando a virdes do fundo de vosso
coração, tereis então a chave que acabará com
o sofrimento.
O sofrimento e o amor não podem
coexistir, mas no mundo cristão idealizaram o sofrimento,
crucificaram-no para o adorar, dando a entender que ninguém
pode escapar ao sofrimento a não ser por aquela única
porta; tal é a estrutura de uma sociedade religiosa, exploradora.
Assim, ao perguntardes o que
é o amor, podeis ter muito medo de ver a resposta. Ela pode
significar uma completa reviravolta; poderá
dissolver a família; podeis descobrir que não amais
vossa esposa ou marido ou filhos (vós os amais?); podeis
ter de demolir a casa que construístes; podeis nunca mais
voltar ao templo.
Mas, se desejais continuar a descobrir,
vereis que o medo não é amor, a dependência
não é amor, o ciúme não é amor,
a posse e o domínio não são amor, responsabilidade
e dever não são amor, autocompaixão não é amor,
a agonia de não ser amado não é amor, que
o amor não é o oposto do ódio, como a humildade
não é o oposto da vaidade. Dessarte, se fordes capaz
de eliminar tudo isso, não
à força, porém lavando-o assim como a chuva
fina lava a poeira de muitos dias depositada numa folha, então,
talvez, encontrareis aquela flor peregrina que o homem sempre buscou
sequiosamente.
Se não tendes amor - não
em pequenas gotas, mas em abundância; se não estais
transbordando de amor, o mundo irá
ao desastre. Intelectualmente, sabeis que a unidade humana
é a coisa essencial e que o amor constitui o único
caminho para ela, mas quem pode ensinar-vos a amar? Poderá
uma autoridade, um método, um sistema ensinar-vos a amar?
Se alguém vo-lo ensina, isso não
é amor. Podeis dizer: "Eu me exercitarei para o amor.
Sentar-me-ei todos os dias para refletir sobre ele. Exercitar-me-ei
para ser bondoso, delicado e me forçarei a ser atencioso
com os outros"? - Achais que podeis disciplinar-vos para amar,
que podeis exercer a vontade para amar? Quando exerceis a vontade
e a disciplina para amar, o amor vos foge pela janela. Pela prática
de um certo método ou sistema de amar, podeis tornar-vos
muito hábil, ou mais bondoso, ou entrar num estado de não-violência,
mas nada disso tem algo em comum com o amor.
Neste mundo tão dividido e árido
não há amor, porque o prazer e o desejo têm
a máxima importância, e, todavia, sem amor, vossa
vida diária é
sem significação. Também, não podeis
ter o amor se não tendes a beleza. A beleza não é uma
certa coisa que vedes - não
é uma bela árvore, um belo quadro, um belo edifício
ou uma bela mulher; só há
beleza quando o vosso coração e a vossa mente sabem
o que é o amor. Sem o amor e aquele percebimento da beleza,
não há virtude, e sabeis muito bem que tudo o que
fizerdes - melhorar a sociedade, alimentar os pobres - só criará
mais malefício, porque quando não há
amor, só há fealdade e pobreza em vosso coração
e vossa mente. Mas, quando há
amor e beleza, sabeis amar, podeis fazer o que desejardes, porque
o amor resolverá todos os outros problemas.
Alcançamos, assim, este ponto:
Poderá a mente encontrar o amor sem precisar de disciplina,
de pensamento, de coerção, de nenhum livro, instrutor
ou guia - encontrá-lo assim como se encontra um belo pôr-de-sol?
Uma coisa me parece absolutamente necessária;
a paixão sem motivo, a paixão não resultante
de compromisso ou ajustamento, a paixão que não é lascívia.
O homem que não sabe o que é paixão, jamais
conhecerá o amor, porque o amor só
pode existir quando a pessoa se desprende totalmente de si própria.
A mente que busca não
é uma mente apaixonada, e não buscar o amor
é a única maneira de encontrá-lo; encontrá-lo
inesperadamente e não como resultado de qualquer esforço
ou experiência. Esse amor, como vereis, não é do
tempo; ele é
tanto pessoal, como impessoal, tanto um só como multidão.
Como uma flor perfumosa, podeis aspirar-lhe o perfume, ou passar
por ele sem o notardes. Aquela flor
é para todos e para aquele que se curva para aspirá-la
profundamente e olhá-la com deleite. Quer estejamos muito
perto, no jardim, quer muito longe, isso é
indiferente à flor, porque ela está cheia de seu
perfume e pronta para reparti-lo com todos.
O amor é uma coisa nova, fresca,
viva. Não tem ontem nem amanhã. Está além
da confusão do pensamento. Só a mente inocente sabe
o que é o amor, e a mente inocente pode viver no mundo não
inocente. Só é possível encontrá-la,
essa coisa maravilhosa que o homem sempre buscou sequiosamente
por meio de sacrifícios, de adoração, das
relações, do sexo, de toda espécie de prazer
e de dor, só é possível encontrá-la
quando o pensamento, alcançando a compreensão de
si próprio, termina naturalmente. O amor não conhece
o oposto, não conhece conflito.
Podeis perguntar: "Se encontro esse
amor, que será de minha mulher, de minha família?
Eles precisam de segurança". Fazendo essa pergunta,
mostrais que nunca estivestes fora do campo do pensamento, fora
do campo da consciência. Quando tiverdes alguma vez estado
fora desse campo, nunca fareis uma tal pergunta, porque sabereis
o que é o amor em que não há pensamento e,
por conseguinte, não há tempo. Podeis ler tudo isto
hipnotizado e encantado, mas ultrapassar realmente o pensamento
e o tempo - o que significa transcender o sofrimento - é
estar cônscio de uma dimensão diferente, chamada "amor".
Mas, não sabeis como chegar-vos
a essa fonte maravilhosa - e, assim, que fazeis? Quando não
sabeis o que fazer, nada fazeis, não
é verdade? Nada, absolutamente. Então, interiormente,
estais completamente em silêncio. Compreendeis o que isso
significa? Significa que não estais buscando, nem desejando,
nem perseguindo; não existe nenhum centro. Há, então,
o amor.