O DESENVOLVIMENTO DO CORRETO PENSAR Krishnamurti
Do livro: O Egoísmo e o Problema da Paz –
Editora ICK – 1949
Pergunta: Nestes últimos anos
pareceis concentrar-vos, cada vez mais, no desenvolvimento do correto
pensar. Anteriormente, costumáveis falar mais a respeito
de estados místicos. Estais evitando deliberadamente este
ponto, agora?
Krishnamurti:
Não é necessário estabelecer-se a base adequada
para a verdadeira compreensão? Sem o pensar correto não é ilusória
a nossa compreensão? Se desejardes uma casa bem construída
e durável, não é necessário assentá-la
em alicerces sólidos e adequados? Compreender é relativamente
fácil, conforme o seu condicionamento, assim compreende
cada um. Compreendemos em conformidade com as nossas crenças
e ideais, mas essa compreensão traz-nos libertação?
Já não notastes que nossa compreensão
é ditada pelas tradições e crenças?
— A tradição e a crença, pois, determinam
a nossa compreensão, mas, para compreendermos a Realidade,
que não se prende a nenhuma tradição ou ideologia,
não é necessário que o pensamento ultrapasse
o próprio condicionamento? A Realidade não é o
incriado? Não deve, pois, a mente desistir criar, de formular,
para que possa compreender o Incriado? Não deve a mente-coração
ficar absolutamente quieta e silenciosa para conhecer o Real?
Assim como um sentimento pode ser
falsamente interpretado, assim também é
possível darmos a qualquer sentimento a aparência
de Realidade. A tradução depende do intérprete
e se este for influenciado por preconceitos, se for ignorante,
se tiver sido moldado por um padrão de pensamento, a sua
compreensão corresponderá a esse condicionamento.
Se for o que se chama religioso, compreenderá de acordo
com sua tradição e crença; se for irreligioso,
a compreensão se moldará
de acordo com seu caráter. A capacidade de um instrumento
depende do próprio instrumento; a mente-coração
deve fazer-se capaz. Ela é capaz de conhecer o Real, ou
de criar ilusões para si própria. Compreender o
Real é muito difícil, porquanto requer flexibilidade
ilimitada e tranqüilidade profunda. Essa flexibilidade,
essa tranqüilidade, não são resultado do desejo
nem de ato de vontade, porquanto o desejo e a vontade procedem
do anseio, sendo este o impulso dualista de ser e de não
ser. A flexibilidade e a tranqüilidade não dimanam
do conflito; elas surgem com a compreensão e esta vem
com o autoconhecimento.
Sem autoconhecimento, viveis sempre num
estado de contradição e incerteza; sem autoconhecimento
não tem base o que pensais e sentis; sem autoconhecimento
não é possível o esclarecimento. Vós
sois o mundo, o próximo, o amigo, o dito inimigo. Se desejais
compreender, deveis de compreender em primeiro lugar a vós
mesmos, porque em vós se acha a raiz de toda a compreensão.
Em vós está o começo e o fim. Para compreender
entidade tão vasta e complexa, deve a mente-coração
ser singela.
Para compreender o passado, precisa a
mente-coração de estar cônscia de suas próprias
atividades no presente; porque somente pelo presente pode ser compreendido
o passado, mas não compreendereis o presente enquanto estiverdes
identificado com o “ego”.
Assim, pois, pelo presente revela-se
o passado; pela percepção imediata são revelados
e compreendidos os numerosos estratos ocultos da consciência. É,
pois, a vigilância constante que nos dá autoconhecimento
profundo e vasto.
Krishnamurti –
Do livro: O Egoísmo e o Problema da Paz –
Editora ICK – 1949
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