O HOLISMO NA EDUCAÇÃO
Planeta - Quais são as diferenças
básicas entre a educação tradicional e a holística?
Maria Luiza - Na prática da escola comum,
a ênfase é colocada nos aspectos cognitivos, enquanto
na proposta holística outras dimensões são
contempladas como igualmente importantes: a relação
mente-corpo, a inteligência emocional (onde se inclui o autoconhecimento
e a aceitação do outro), a relação com
o meio ambiente e a criatividade. O resultado disso é o desabrochar
da espiritualidade e a conquista da paz.
Planeta – No que tange à educação,
o Brasil enfrenta problemas seriíssimos: falta de escolas,
de material, de merenda, etc. Entraves como esses não dificultam
a adesão generalizada em relação ao holismo?
Maria Luiza – Sem dúvida. Na medida
em que falte o mínimo, os esforços se dirigirão
para a obtenção desse mínimo, prejudicando
não só um programa de educação espiritual,
mas o de todo e qualquer conteúdo curricular. Felizmente,
porém, hoje essa não é a regra na educação
brasileira de primeiro grau, em que pesem as malversações
das verbas que lhe são destinadas. Para as escolas que estão
funcionando normalmente, nada além do que elas já
têm, do ponto de vista material, será necessário
para que venham a cultivar a dimensão espiritual das crianças.
Planeta – Em seu livro Educação
para a Nova Era (Summus), a senhora aponta, entre outras, a pedagogia
Waldorf, a educação Rosa Cruz e a educação
em valores humanos, , desenvolvida por Sathya Sai Baba, como exemplares.
A senhora tem alguma preferência por alguma dessas linhas?
Maria Luiza - Dos três exemplos citados,
os dois primeiros não podem ser utilizados fora do contexto
filosófico que lhe dá origem, a não ser tomados
como sugestão alguns dos procedimentos aí adotados,
os quais se encontram disseminados em outros contextos.
Já a educação em valores humanos de Sathya
Sai baba ou da Brahma Kumaris, assim como a Educação
Para a Paz, de Ubiratan D’ Ambrósio, podem perfeitamente
ser aplicadas em qualquer escola, na medida em que o corpo docente
esteja sensibilizado para uma ação conjunta.
Planeta – Como pedir a um professor
que mal ganha para o sustento da família que tenha equilíbrio
interior para compartilhar valores transcendentais com seus alunos?
Maria Luiza – Se esse professor, mesmo
ganhando mal, se sente melhor cultivando a paz interior, via meditação
e outros recursos, ele poderá perfeitamente querer compartilhar
essa paz com seus alunos, sem abrir mão do direito e do exercício
da luta por condições melhores de vida e de trabalho.
PLANETA - Como não existe um método
holístico propriamente dito, qual seria o caminho para se
implantar nas redes oficiais de ensino esse tipo de educação?
Maria Luiza - Começando por oferecer ao
professor a oportunidade de cultivar o autoconhecimento e a ampliação
da consciência social e ambiental. Para tal existem cursos,
com atividades de sensibilização e reflexão.
Isso, porém, não pode ser imposto. Deve ser fruto
da opção de interessados. Espera-se que os bons efeitos
funcionem como o melhor estímulo para uma adesão mais
ampla.
PLANETA - De que maneira podemos formar professores
especializados nessa área? Existem cursos voltados exclusivamente
para isso?
Maria Luiza - Sim, existem, por exemplo, na Unipaz (Universidade Holística Internacional). Os interessados devem
dirigir-se à sede de sua região para estudar convênio
com vistas à formação dos professores. No Estado
de São Paulo, a sede se encontra em Campinas, à Rua
João de Araújo Cunha, 2.852, Vila Brandina; e-mail: unipaz@ unipaz.com.br
A Fundação
Peirópolis desenvolve cursos de imersão,
em oito dias seguidos, sobre Educação em Valores Humanos,
de Sai Baba (telefone: 0800142024). Também desenvolve cursos
de pós-graduação para turmas interdisciplinares.
Outra opção é a Organização Brahma
Kumaris, também com sede nas capitais e em várias
cidades do interior. (O endereço da sua sede nacional é
Rua D. Germaine Burchard, 589, Perdizes, São Paulo; e-mail: bkwsusp@unetsys.com.br)
A Assintec (Associação Interconfessional
de Educação de Curitiba), em convênio com a
Pontifícia Universidade Católica do Paraná,
por sua vez, já formou muitos especialistas em pedagogia
para o ensino religioso.
Podemos citar ainda os cursos de Formação
Holística de Educadores (Rua Cristóvão
Colombo, 3.437, Porto Alegre, RS) e os vários Coners (Conselhos
de Ensino Religioso dos Estados), que promovem cursos em diferentes
regiões.
PLANETA -A experiência de Summerhill - sistema criado na Inglaterra em 1921, por Alexander S. Neil -
centrava-se, sobretudo, na liberdade total para o aluno, em todos
os sentidos: na escolha do currículo, tarefas e até
para freqüentar ou não as aulas. Com isso, foi considerado
pela maioria dos educadores como permissivo. A senhora concorda
com isso?
Maria Luiza - A admirável experiência
pedagógica vivida em Summerhill demonstrou a importância de vários aspectos presentes
na educação holística. A mais importante, a
meu ver, foi o interesse pelo desenvolvimento emocional e social
dos educandos e nisso a escola foi bem-sucedida. A prioridade estava
em tomar crianças felizes para que viessem a ser adultos
felizes. Na verdade, não considero o trabalho aí desenvolvido
tão permissivo quanto pode parecer à primeira vista,
mas reconheço a impossibilidade de se generalizar tal tipo
de organização escolar.
PLANETA - A educação holística
é tida como a mais eficiente arma para se obter a paz. Por
quê?
Maria Luiza - Porque exclui qualquer sectarismo
religioso, filosófico ou político e, assim, aproxima
e confraterniza os grupos humanos. E a construção
disso começa no interior de cada ser humano.
PLANETA -A espiritualidade - um termo encarado
com certo preconceito pela maioria dos intelectuais - é,
talvez, o pilar mestre do sistema de educação holística.
Trace para nós a diferença entre religião e
espiritualidade e mostre-nos como esta última pode ser ensinada
nos limites da escola.
Maria Luiza - Quando se fala em religião,
tem-se em mente um corpo doutrinário, com princípios
e/ou dogmas e práticas específicos. Caso as coisas
aconteçam como convém, comporta também o exercício
da espiritualidade e o encontro com a divindade. Mas a diversidade
de crenças e o respeito à postura agnóstica
ou atéia dos cidadãos torna inviável e inaceitável
tal ensino numa escola pública. É por esse motivo
que se vêm formando centros de formação para
o ensino inter-religioso, onde não se discutem questões
doutrinarias, mas se põe ênfase em questões
éticas comuns aos vários credos.
Mesmo nas escolas confessionais, o ensino religioso se dirige mais
a pontos tais como “Deus existe e nos ama”, “Deus
quer a nossa felicidade e a do nosso irmão”, etc. Reserva-se
a doutrina propriamente dita para as igrejas. Já espiritualidade,
termo que uso com certa freqüência, sugere o cultivo
de tudo aquilo a que já me referi antes: consciência
da relação mente-corpo, da relação eu-outro,
da relação de pertinência à Terra e,
sobretudo, de pertinência a uma força maior dentro
e/ou fora de mim, mas só constatada no silêncio interior.
PLANETA - Quais são os principais centros
de educação holística no Brasil?
Maria Luiza - Sem dúvida, as unidades da Unipaz (Universidade Holística Internacional).
PLANETA - A senhora poderia nos fornecer alguns
nomes e endereços de escolas holísticas?
Maria Luiza - Sim, mas antes gostaria de adiantar
que somente uma delas nasceu, ou melhor, cresceu amparada pela Unipaz.
As demais foram reconhecidas como holísticas, mas nasceram
e cresceram quando ainda nem existia ou era conhecido o movimento
holístico no Brasil. Por isso, estou certa de que haverá
outras tantas escolas de primeiro grau dentro desse mesmo espírito
por nosso país afora. Relacionarei as seguintes:
- Casa do Sol (Unipaz) End.: BR-040 –
Granja do Ipê – UNIPAZ - Saída Sul km 30 Park
Way Brasília – DF – Tel.: (61) 380-2069/380-1885/380-2090
Fax: (61) 380-1202/(61) 380-2090
Email: paz@tba.com.br
- Vila Creche, Escola e Espaço Cultural,
Rua Sebastião Leme, 819, Bairro de Fátima, Fortaleza,
CE, fone: (85) 2270551.
- Escola Amigos do Verde, Rua Cristóvão
Colombo, 3.437, Porto Alegre, RS; site:http://www.amigosdoverde.com.br
e-mail: amigosdoverde@amigosdoverde.com.br
- Escola Moara, http://www.escolamoara.com.br - SHIN QI 3 - Conjunto 8 - Casa 26 (entrada pela QI 5, rua da
9a. DP) Tel.: (61) 3368-7224 / 3368-7225 Brasília - DF
- Escola Mater Chiisti, Recife, PE, fone (81)
441-6403.
Por: Maria Luiza P. Cardoso
Fonte: Revista Planeta - Edição 330 - Ano 28 - nº
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