O HOMEM NO MUNDO Krishnamurti
Brockwood Park, 17 de setembro de 1971.
Do livro: “NOSSA LUZ INTERIOR
– O Verdadeiro Significado da Meditação”
Editora Ágora - 2000 – págs 98/105 - tradução
de Ruth Rejman.
Sempre que viajamos para diferentes
partes do mundo, encontramos mentes, desde as mais rudes as mais
sutis, dedicando esforços enormes para encontrar algo sagrado,
realmente santificado. Para qualquer lugar que vamos, sempre ouvimos
constantes indagações a respeito da mente humana, se
de fato existe alguma coisa realmente sagrada, divina, algo que não
seja passível de corrupções.
Como resposta a essa pergunta, os sacerdotes
em todo o mundo dizem que é preciso ter fé em algo
que denominam
"Deus".
Será que podemos descobrir a existência de Deus pelos
mandamentos de determinada religião ou crença?
Ou isso não passa de invenção da mente amedrontada,
que vê
as coisas fluírem, transitórias, e por isso buscam
algo permanente, que se situe fora do tempo? Precisamos nos preocupar
se de fato acreditamos ou não, porque a menos que nos enfronhemos
nesse assunto, e aprendamos a seu respeito, o sentido da vida sempre
será superficial. Podemos ter princípios morais - no
verdadeiro sentido das palavras, sem nenhuma repressão, sem
a interferência da sociedade ou da nossa cultura - e levar
uma vida harmoniosa, sadia, equilibrada, sem contradições
e sem medos, porém, a não ser que encontremos aquilo
que a humanidade vem procurando, não importa o quanto somos
virtuosos, socialmente ativos tentando ser caridosos e assim por
diante, a vida será sempre frívola.
Para vivermos de acordo com os princípios morais verdadeiros
e a virtude, temos de estar profundamente integrados no âmbito
da ordem.
Se formos plenamente sérios, interessados de verdade no fenômeno
da existência como um todo, é importante descobrirmos
sozinhos se há algo inominável fora do tempo, que não
tenha sido formado pelo pensamento, que não seja mera ilusão
da mente humana, ansiando por experiências do além.
Precisamos aprender a respeito, pois isso nos proporcionará uma
surpreendente visão da dimensão da vida - não
apenas em seu significado, como em toda sua beleza - na qual não
existem conflitos, porém um grande senso de inteireza, de
completitude e total suficiência. Quando a mente obtiver essa
percepção, deve naturalmente abandonar as coisas que
o homem formou, às quais ele denomina divinas, juntamente
com todos os rituais, crenças e dogmas a que está condicionado.
Espero que tenhamos nos comunicado e, também, que você tenha
abandonado aquelas coisas não só verbalmente, mas em
seu interior mais profundo, de maneira que você se torne capaz
de conduzir-se sozinho, sem depender psicologicamente de nada. É bom
duvidar; contudo, a dúvida deve estar sob seu domínio.
Manter a dúvida inteligentemente sob seu domínio é indagar,
mas duvidar de tudo não tem sentido.
Se você investigou com inteligência e viu sozinho todas
as sugestões de estruturas que o homem idealizou em sua ânsia
de descobrir se existe ou não a imortalidade, um estado de
espírito que é infinito e imorredouro, então,
você pode começar a aprender.
O pensamento nunca pode alcançar esse estado, pois ele não é apenas
tempo e medida, mas retém todo o conteúdo do passado
consciente e inconsciente. Quando o pensamento diz que vai buscar
algo verdadeiro, ele projeta aquilo que considera real, e que acaba
se transformando em ilusão.
Quando o pensamento se dispõe a praticar uma disciplina com
a finalidade de descobrir a verdade, está realizando o que
a maioria dos santos, religiosos e as doutrinas realizam. Vários
gurus vão lhe aconselhar a treinar seu pensamento, controlá-lo
e discipliná-lo, encaixá-lo dentro de padrões
que eles vão determinar, para que você finalmente se
depare “com o que é real”. Contudo, sabe-se que
o pensamento jamais poderá descobrir, porque ele é essencialmente
o oposto da liberdade. Nunca poderá ser novo, e para encontrar
algo que seja totalmente imperceptível, desconhecido e irreconhecível,
o pensamento precisa estar em absoluta quietude.
O pensamento pode permanecer em absoluta quietude - sem nenhum esforço,
sem ser controlado?
Porque no momento que ele for controlado vai haver um controlador
que também
é criação do pensamento. Então o controlador
começa a dominar seus próprios pensamentos, e surgem
os conflitos que são sempre o resultado da atividade do pensamento.
A mente é
o resultado do tempo, da evolução; é
o depósito de grandes conhecimentos, de muitas influências,
experiências, que são a própria essência
do pensamento.
A mente pode permanecer quieta, sem ser controlada, sem disciplina,
sem nenhum tipo de esforço?
Sempre que há esforço, há distorção.
Se você e eu entendermos isso, então seremos capazes
de exercer nossas funções com equilíbrio, de
modo normal e saudável em nossa vida diária, ao mesmo
tempo em que teremos uma extraordinária sensação
de liberdade de pensamento.
Agora, como isso acontece?
É o que a humanidade vem buscando.
Sabemos perfeitamente que o pensamento é transitório,
que pode ser modificado, aumentado e que não consegue penetrar
de fato em algo que seja imperceptível por quaisquer processos
de pensamento. A humanidade deseja saber como o pensamento pode ser
controlado, porque sabemos com certeza que só
quando a mente esta completamente imóvel podemos ouvir ou
ver algo com clareza.
Pode o cérebro, a mente, permanecer completamente imóvel?
Você já se fez essa pergunta? Se fez e encontrou a
resposta, esta deve estar de acordo com o seu modo de pensar.
O pensamento pode perceber sua própria limitação
e, ao percebê-la, manter-se imóvel? Se você já observou
sua própria mente funcionando, notou que as células
cerebrais são em si mesmas o conteúdo do passado. Cada
célula cerebral mantém a memória do ontem, porque
esta memória dá segurança ao cérebro;
o amanha é incerto, ao passo que o ontem é certo; há segurança
naquilo que é conhecido. Logo, o cérebro
é o passado e, portanto, é o tempo. Só
consegue raciocinar em termos de tempo: ontem, hoje e amanhã.
O amanhã é incerto, mas o passado, por intermédio
do presente, torna o futuro
“mais certo”.
O cérebro, que foi treinado e educado durante milênios,
pode permanecer completamente imóvel?
Por favor, conheça antes o problema, pois quando entendemos
os problemas e todas as suas implicações com clareza,
sabedoria e inteligência, a resposta está no problema,
não fora dele. Qualquer problema, se você
examinar bem, contém em si mesmo a solução;
esta não se encontra fora dele.
Então, a questão
é a seguinte: Pode o cérebro, a mente, toda a estrutura
orgânica, permanecer absolutamente silenciosa? Sabemos que
há diferentes tipos de silêncio. Aquele entre dois ruídos,
entre duas declarações verbais, o induzido, aquele
que é resultado de uma rigorosa disciplina ou controle. Todas
essas formas de silêncio são estéreis. Não
são o silêncio. São produtos do pensamento que
quer ficar silencioso, mas continua dentro da área do pensamento.
Como pode a mente - que representa o todo - aquietar-se sem um motivo?
Se houver um motivo, ele é
também produto do pensamento.
Se você desconhece a resposta, alegro-me, porque esta requer
total sinceridade.
Para descobrirmos se existe de fato algo que foge dessa dimensão,
voltado para uma dimensão completamente diferente, precisamos
da absoluta sinceridade; nesta não haverá
decepções, porque não há desejos. No
momento em que a mente desejar encontrar esse estado, ela vai inventá-lo,
e será tomada por uma ilusão, por uma visão.
Essa visão, essa experiência, será uma projeção
do passado e, por mais agradável, encantadora e prazerosa
que seja, ainda assim será o reflexo do passado.
Se tudo o que dissemos está claro, não só
verbalmente, mas de verdade, então a questão
é: O conteúdo e aquilo que compõe a consciência
podem ser radicalmente esvaziados?
Todo o conteúdo interior de nossa conscientização
diária é
o inconsciente e o consciente: aquilo que contém o pensamento,
que foi acumulado e adquirido por meio da tradição,
da cultura, de lutas, sofrimentos, tristezas, decepções.
A totalidade disso tudo é a minha e a sua consciência.
Para descobrirmos se realmente existe alguma coisa que se situa além
dessa dimensão, é preciso muita sinceridade.
Sem seu conteúdo, o que
é a consciência?
Só conheço minha consciência em virtude do seu
conteúdo.
Sou hindu, budista, cristão, católico, comunista,
socialista, artista, cientista, filósofo. Sou apegado a minha
casa; a minha mulher, aos meus amigos. As conclusões, lembranças,
imagens que construí durante cinqüenta, cem ou milhares
de anos são o conteúdo. O conteúdo
é minha consciência, como a sua, e a área da
consciência é o tempo, porque a área do pensamento é a área
da medição, da comparação, da avaliação,
do julgamento. Dentro da área da minha consciência estão
meus pensamentos inconscientes e conscientes. E qualquer movimento
dentro dessa área estará
dentro da ação da consciência com seu conteúdo.
Por esse motivo, o espaço na consciência é muito
limitado.
Tudo o que aprendemos juntos será seu, não meu.
Quando estiver livre dos chefes, dos professores, sua mente estará aprendendo.
Portanto, haverá energia, e você ficará louco
para descobrir.
Mas se estiver seguindo alguém, então vai perder toda
essa energia.
Dentro da área da consciência, juntamente com seu conteúdo,
que é o tempo, o espaço torna-se muito exíguo.
Podemos expandir esse espaço por meio da imaginação,
inventando, por vários processos de estiramento, pensando
mais e mais sutilmente, mais deliberadamente, e ainda assim estará dentro
do espaço limitado da consciência com seus conteúdos.
Qualquer movimento para ir além dele mesmo estará dentro
do conteúdo.
Se você usar drogas, o resultado ainda será fruto da
atividade do pensamento dentro da consciência, e se pensa que
está
indo além, ainda está dentro, porque é
apenas uma idéia ou vivência do conteúdo com
mais profundidade. Então vemos o conteúdo, que é o "mim",
que é o ego, que
é a pessoa a quem chamamos de indivíduo. Dentro dessa
consciência, embora expandida, o tempo e o espaço limitados
continuam a existir. Quando a consciência emprega um esforço
para alcançar algo que esteja além dela, ela inventa
a ilusão. Partir em busca da verdade é absurdo. Aprendendo
por intermédio de um "mestre" ou de um guru, você estará apenas
praticando um método, sem conhecer todo o seu conteúdo
e perceber sua frivolidade; é como pretender que um cego conduza
outro cego.
A mente é seu conteúdo.
O cérebro é o passado, e é a partir desse passado
que o pensamento funciona.
O pensamento jamais é
livre ou novo. Então surge a questão: Como esse conteúdo
pode ser esvaziado?
Não é por meio de um método, porque na hora
em que você
estiver praticando um método, que alguém lhe ensinou
ou que você inventou ele se torna mecânico. Além
do mais, ainda está no campo do tempo e do espaço limitados.
A mente pode enxergar sua própria limitação,
e a própria percepção dessa limitação
pode fazer com que ela acabe?
Em lugar de perguntar como esvaziar a mente, podemos enxergar todo
o conteúdo que compõe a consciência, perceber
e ouvir todos os seus movimentos, de maneira que a simples percepção
desse fato é seu próprio fim?
Se noto que alguma coisa é
falsa, a mera percepção do falso é
o verdadeiro.
A mera percepção da mentira é a própria
verdade.
A mera percepção da minha inveja torna-me livre dela.
Isto é, você só
consegue ver e observar com clareza quando não existe o observador.
O observador é o passado, a imagem, a conclusão, a
opinião, o julgamento.
Então, a mente consegue ver claramente seu conteúdo
sem nenhum esforço, ver sua limitação, a falta
de espaço, a vinculação do tempo com a qualidade
da consciência e seu conteúdo?
Você pode enxergar isso?
Somente poderá ver o todo - o conteúdo do consciente
e do inconsciente - quando olhar em silêncio, quando o observador
estiver totalmente imóvel. Isto significa o emprego de muita
atenção, e é nessa atenção que
há energia. Considerando que você despende um esforço
ao prestar atenção, esse esforço é um
gasto de energia. O mesmo acontece quando tenta controlar. O controle
implica conformidade, comparação, repressão,
e tudo isso representa dispêndio de energia. Quando há
percepção, há atenção, que é pura
energia e na atenção não há nem um sopro
de perda de energia.
Agora, quando olhamos com energia todo o conteúdo da consciência
e da inconsciência, a mente se esvazia.
Não é ilusão.
Não é o que acho ou uma conclusão a que cheguei.
Se eu chegar a uma conclusão, se achar que isso é o
certo, então estou me iludindo.
E sabendo que é uma ilusão não me manifesto
a respeito, porque seria como um cego conduzindo outro cego.
Você vai conseguir enxergar a lógica desse fato, seu
bom senso, se estiver ouvindo, se estiver prestando atenção,
se realmente estiver disposto a descobrir.
Como é possível que o inconsciente exponha toda a
profundidade do seu conteúdo?
Primeiro, olhe para a questão e depois partiremos desse ponto.
Como dividimos tudo na vida, dividimos o consciente em consciente
e inconsciente.
Essa divisão, essa fragmentação,
é induzida por nossa cultura, por nossa educação.
O inconsciente tem suas razões, sua herança racial,
sua experiência.
Será que isso pode ser exposto à luz da inteligência?
A luz da percepção?
Se você fizer essa pergunta, não estará se colocando
no lugar do analista, que vai verificar o conteúdo e, portanto,
provocar a divisão, a contradição, o conflito
e a tristeza? Ou estará perguntando sem saber a resposta?
Isto é relevante. Se está perguntando com sinceridade
e seriedade, sobre como expor toda a estrutura escondida da consciência
sem de fato conhecê-la, irá aprender; entretanto, se
já tirou qualquer tipo de conclusão, se tem uma opinião
formada, então está
chegando com uma mente que já pressupôs a resposta ou
concluiu que não há resposta alguma. Seu conhecimento
pode ter vindo de algum filósofo, psicólogo, analista,
mas não do seu próprio conhecimento.
É o conhecimento deles e você está interpretando
e tentando compreender o que não é real.
Para a mente que diz "Eu não sei" - o que é verdade,
e sincero, - o que existe?
Quando você diz "Eu não sei", o conteúdo
não tem a mínima importância, porque denota ser
uma mente fresca. É uma nova mente que diz "Eu não
sei".
No entanto, ao dizer isso não só oralmente, por brincadeira,
mas com intensidade, com significado, com sinceridade, esse estado
mental que nada sabe está vazio de sua consciência e
de seu conteúdo.
O conhecimento é o conteúdo.
Esta vendo? Sempre que a mente diz que não sabe, ela se mostra
nova, viva, atuante;
é sinal de que não possui ancoradouro. E só quando
possui ancoradouro que armazena opiniões, conclusões
e separação.
Isso é meditação.
Ou seja, meditar é perceber a verdade a cada segundo, não
a verdade definitiva.
É perceber a cada instante o que é falso é o
que é verdadeiro.
É perceber a verdade de que o conteúdo é a
consciência - isto é a verdade.
Perceber a verdade “de eu não saber lidar com tudo
isso” - essa
é a verdade, o não conhecimento.
Portanto, não saber é
o estado isento de conteúdo.
É extremamente simples.
Você pode colocar objeções, porque esperava
algo inteligente, complicado, ao ver que algo bastante simples pode
ser tão fantasticamente maravilhoso.
Pode a mente, que é o cérebro, enxergar sua própria
limitação, a limitação do tempo, a escravidão
ao tempo e a limitação ao espaço?
Enquanto vivermos dentro de um espaço limitado, dependentes
do movimento do tempo, haverá sofrimento, desespero psicológico,
esperança e todas as angústias que os acompanham.
Quando a mente percebe essa verdade, o que é o tempo?
Então vai surgir uma nova dimensão que o pensamento
não consegue alcançar e, portanto, não pode
ser descrita?
Já dissemos que o pensamento e medição é,
portanto tempo. Vivemos em função das medidas; toda
a estrutura do nosso pensamento está baseada em medidas, o
que envolve comparação.
O pensamento, como medição, tenta ir além de
si mesmo e descobrir por si só
se existe algo que não é mensurável.
Perceber a falsidade que esse fato contém é a verdade.
A verdade é enxergar o falso, e o falso existe quando o
pensamento procura aquilo que não é mensurável,
que não é o tempo, nem o espaço do conteúdo
da consciência.
Quando fazemos todas essas questões, quando você
vai aprendendo à medida que progride, então sua mente
e seu cérebro se tornam extraordinariamente imóveis.
Não há necessidade de disciplina, de professor, de
guru ou de qualquer método para que isso aconteça.
Atualmente, existem diversas formas de meditação no
mundo.
O homem esta excessivamente
ávido e ansioso para experimentar algo que ainda não
conhece.
Ioga agora está na moda; foi trazida pare o Ocidente para
tornar as pessoas saudáveis, felizes e joviais, para ajudá-las
a encontrar Deus - em todos os lugares se fala disso. A busca pelo
oculto também está na moda, já que é
um assunto muito excitante. Para a mente de alguém que está buscando
a verdade, que está tentando conhecer a vida como um todo,
que vê quando o falso
é falso, e a verdade no que é falso, as coisas ocultas
são óbvias demais e esse tipo de mente não pode
tocá-las. Não tem a menor importância eu ler
seus pensamentos ou você ler os meus, poder ver anjos, fadas
ou ter visões. Queremos ver algo misterioso, mas não
vemos o imensurável mistério do viver, do amor pela
vida.
Não vemos isso e esbanjamos tempo em coisas que não
tem a menor importância.
Depois que você terminou com tudo isso, vem a questão
principal: existe algo que não pode ser descrito?
Se você puder descrevê-lo, não será o
indescritível.
Existe algo que não é
o tempo, que é um espaço sem limites e imensamente
grande?
Quando seu espaço é
limitado, você se torna viciado; quando não há espaço,
nós tornamos violentos, queremos quebrar objetos. Você quer
espaço, mas a mente e o pensamento não lhe permitem
obtê-lo.
Só no silêncio existe espaço sem fronteiras.
Apenas a mente completamente silenciosa é que sabe, que está ciente
da existência ou não de algo que se situa além
de qualquer medida.
Essa é a única coisa sagrada - não são
as imagens, os rituais, os salvadores, os gurus, as visões.
Somente aquilo é sagrado, o lugar em que a mente chegou sem
perguntar, porque em si mesmo está vazio.