O mito da inovação

Numa escala de tempo geológica, faz pouco tempo que o homem desceu das árvores e começou a caminhar ereto. Em termos relativos, a história toda resume-se a alguns meros segundos. Apesar disso, esse lapso de tempo foi o bastante para o bicho pensante fazer mais estragos no planeta do que todos os cataclismos precedentes juntos. No início da revolução industrial, a mais de 2 séculos atrás, a ignorância era a desculpa natural pelo erro. Hoje em dia, apesar de todo o conhecimento e informação acumulados, as coisas só tendem a piorar. Tudo indica que a ignorância do Homo "Sapiens Sapiens" aumentou, mostrando de modo contundente que informação, conhecimento e sabedoria são coisas bem diferentes.

Estaríamos, ao contrário do apregoado, vivendo a era da ignorância. Uma espécie de retorno à Idade Média. Aliás, o cenário atual guarda inúmeras semelhanças com a Idade Média. Naqueles idos, o fanatismo religioso mesclado aos interesses político-econômicos, impedia qualquer tentativa de progresso humano – entenda-se por progresso humano o real esclarecimento do homem quanto à sua condição material e espiritual. O que temos hoje não é muito diferente. Em primeiro lugar vem a idolatria ao Liberalismo Econômico. Uma seita defendida com unhas e dentes por todos que julgam que a concentração perdulária de um lado e a exclusão total de outro, fazem parte de algum processo de seleção natural. Uma espécie de expurgo divino da incompetência. Um expurgo que de fato ocorrerá, mas de forma bem diferente.

Na linha de frente do combate ao progresso humano está a mídia, sobretudo a televisiva. O lixo diário jogado na cara dos incautos é mais eficiente que qualquer fogueira medieval para impedir que o Povo conquiste algum nível mínimo de esclarecimento político ou social. Na visão de "futuro" dos ideólogos do Livre Mercado, criticar essas "inovações" é heresia.

Ser humanista e ambientalista é coisa para românticos. Gente que não tem o que fazer e passa o tempo sonhando com pássaros e flores. É curioso como a humanidade se deixou embriagar pelo mito da inovação. Um mito que induz a massa estúpida a consumir produtos e idéias inúteis maquiadas com aparência de progresso. Um mito que leva os ingênuos a crerem na existência de infinitas possibilidades de um futuro glorioso para a humanidade. Acho que pensam que o dinheiro, por si só, proverá ar puro, água potável, equilíbrio na biosfera, energia e paz para todos. Ledo engano. Nossa única possibilidade de futuro é a verdadeira solidariedade e desprendimento. Coisas completamente incompatíveis com o atual e "inovador" modelo de organização sócio-econômica do Mundo. É lamentável como o homem prospecta o futuro olhando para o próprio umbigo. É cômodo, afinal de contas, não estaremos por aqui para pagar a conta. Para que nos preocuparmos? Aproveitemos as novidades do Velho Circo!!!

Cesar Boschetti

César Boschetti é formado em Física pela USP - Universidade de São Paulo, com mestrado e doutorado na área de materiais semicondutores e dispositivos optoeletrônicos para o infravermelho. Trabalha como Tecnologista no LAS - Laboratório Associado de Sensores e Materiais do INPE e Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais em São José dos Campos, desde 1979.
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