O PODER CRIATIVO Krishnamurti
Do livro: O Egoísmo e o Problema da Paz –
Editora ICK – 1949
Pergunta: No meu entender, afirmais que
o estado de potência criadora é
uma embriaguez difícil de deixar. Entretanto, falais freqüentemente
da pessoa que cria. Quem
é ela, senão o artista, o poeta, o arquiteto?
Krishnamurti: O artista, o poeta, o arquiteto é necessariamente
criador? Ele não é também lascivo, mundano,
ansioso de prosperidade? Não está, assim, contribuindo
para o caos e as misérias do mundo? Não é responsável
pelas suas catástrofes e sofrimentos? Ele o é, quando
ambiciona a fama, quando é invejoso, quando é mundano;
quando os seus valores são dos sentidos; quando é
apaixonado. A circunstância de possuir um certo talento faz
o artista criador.
Criar
é coisa infinitamente, superior à mera capacidade de
expressão. A simples expressão de efeito feliz, e os
aplausos que suscita, não representam, por certo, manifestações
da atividade criadora. Prosperar, neste mundo, significa ser deste
mundo —
o mundo da opressão, da crueldade, da ignorância e da
malevolência. Não o achais? A ambição produz
resultados, sem dúvida, ma não acarreta infelicidade
e confusão, tanto para o que a realiza como para seu semelhante?
O cientista, o arquiteto, podem haver trazido certos benefícios,
mas não
é certo que têm também trazido destruições
e desgraças inenarráveis? É criar, isso? É criar,
atiçar o homem contra o homem, como o fazem os políticos,
os governantes, os sacerdotes.
A potência criadora surge quando
estamos livres da servidão do anseio, com o seu conflito
e seus pesares. Pelo abandono do “eu”, com sua positividade
e crueldade, com suas lutas incessantes por vir a ser, surge a
Realidade criadora. Na beleza de um pôr de sol ou de uma
noite calma, já não sentistes uma alegria intensa
e criadora? Num momento desses, estando o “eu” temporariamente
ausente, ficais suscetíveis, abertos à Realidade.
Essa é uma ocorrência rara, não buscada, independente
de nossa vontade, mas o “ego”, havendo-a provado uma
vez, em toda a sua intensidade, quer continuar a deleitar-se com
ela, e por isso começa o conflito.
Todos nós temos conhecido momentos
de ausência do “eu”, sentindo, em tais momentos,
o extraordinário êxtase de criar, mas, em vez desses
instantes raros e fortuitos, não será possível
efetivarmos o verdadeiro estado no qual a Realidade é o eterno
ser? Se buscais com diligência aquele êxtase, poderão,
dessa atividade do “ego”, advir certos resultados, que
não serão, entretanto, aquele estado que nos vem com
o pensar e a meditação corretos. As tendências
sutis do “ego” devem ser conhecidas e compreendidas,
porquanto com o autoconhecimento vem o pensar e a meditação
corretos.
O pensar justo vem no fluir constante da
auto-vigilância, vigilância tanto das ações
mundanas como das atividades meditativas. A potência de criar
e o êxtase que a acompanha surgem na liberdade, no estar livre
do anseio. E isso
é virtude.
Krishnamurti –
Do livro: O Egoísmo e o Problema da Paz –
Editora ICK – 1949