O PROBLEMA DA INSEGURANÇA
Krishnamurti
Do livro: O Egoísmo e o Problema da Paz – ICK
- 1945
A existência é dolorosa e complexa.
Para compreendermos os pesares que nos invadem a existência,
devemos pensar-sentir por maneira nova, devemos enfrentar a vida
de maneira simples e direta; se possível, devemos começar
cada dia renovados. Devemos ser capazes, em cada dia, de fazer nova
avaliação dos ideais e dos padrões que criamos.
A vida só pode ser compreendida profunda e justamente, tal
como existe em cada um de nós; vós sois essa vida e
sem a compreenderdes não pode haver tranqüilidade e alegria
permanentes.
Nosso conflito interior
e exterior surge por obra de valores cambiantes e contraditórios,
baseados no prazer e na dor, não é verdade? A causa
de nossa luta é procurarmos descobrir um valor que seja inteiramente
satisfatório, invariável e não perturbador;
procuramos um valor permanente que proporcione perene deleite, sem
vestígio de dúvida ou de dor. Nossa luta constante
baseia-se nesta exigência de segurança permanente; queremos
segurança, nas coisas, nas relações, no pensamento.
Sem compreender-se o problema da insegurança,
não é possível a segurança. Se buscamos
segurança, não a encontraremos; a busca da segurança
acarreta a destruição da própria segurança. É necessária
a insegurança para a com preensão da Realidade, porém
uma insegurança que não seja o oposto da segurança.
Uma mente bem ancorada, uma mente que se sente segura em algum
refúgio, jamais pode compreender a realidade. O desejo de
segurança gera a indolência; torna a mente-coração
inflexível e insensível, timorata e sem penetração;
impede o estar acessível
à realidade. Na profunda insegurança é-nos
dada a percepção da Verdade.
Mas necessitamos de uma certa segurança,
para vivermos: necessitamos de alimento, de vestuário e de
morada, sem o que não é possível a existência.
Seria relativamente simples organizar e distribuir eficientemente
os recursos necessários
à vida, se ficássemos satisfeitos só
com o provimento de nossas necessidades fundamentais de cada dia.
Não haveria egoísmo nem nacionalismo; não haveria
expansão com petitória nem crueldade; não haveria
necessidade de governos soberanos separados não haveria guerras
se ficássemos inteiramente satisfeitos com o provimento de
nossas necessidades diárias. Entretanto, assim não
o é.
Mas, porque não é possível
organizar os meios de atender às nossas necessidades? Não é possível,
em virtude do conflito incessante de nossa vida cotidiana, com sua
avidez, sua crueldade e seus rancores. Não é possível,
porque nos valemos de nossas necessidades como meios para satisfação
de nossas exigências psicológicas. Porque, interiormente
somos estéreis, vãos, destrutivos, servimo-nos de nossas
necessidades como meio de fuga. E assumem elas, por isso, importância
muito maior do que realmente têm. Tornam-se, psicologicamente,
de suma importância. Ganham, assim, enorme significado os valores
mundanos. A propriedade, o nome, o talento, tornam-se meios para
se galgarem posições, para se alcançar o poder
e a dominação. Relativamente às coisas feitas
pela mão ou pela mente, vivemos em perene conflito; por esse
motivo, a elaboração de planos econômicos para
a existência converte-se no problema predominante. Desejamos
coisas que criem a ilusão de segurança e conforto,
mas que só nos trazem conflito, confusão e antagonismos.
Perdemos, na segurança das coisas produzidas pelo intelecto,
aquela felicidade da Realidade criadora, cuja natureza intrínseca é a
insegurança. A mente que busca a segurança vive em
perene temor; nunca tem alegria, nunca experimenta o estado de potência
criadora. A forma suprema do pensar-sentir é a compreensão
negativa, e a sua verdadeira base, a insegurança.
Quanto mais estudamos o mundo sem compreendermos
os nossos anseios, exigências e conflitos psicológicos,
tanto mais complexo e insolúvel se torna o problema da existência.
Quanto mais planejamos e organizamos a nossa existência econômica,
sem compreender e transcender as nossas interiores paixões,
temores, despeitos, tanto mais conflito e confusão haverão
de surgir. O contentar-se com pouco resulta da compreensão
de nossos problemas psicológicos, não da legislação
ou do esforço determinado de ter poucas posses. Devemos eliminar,
inteligentemente aquelas exigências psicológicas que
encontram satisfação nas coisas, nas posições,
na eficiência. Quando não procurarmos o poder e o domínio,
quando deixarmos de ser egoístas, haverá a paz. Mas,
enquanto nos servirmos das coisas, das relações, ou
das idéias, como meios de satisfazer nossas sempre crescentes
exigências psicológicas, haverá contendas e misérias.
Com a isenção do anseio vem o correto pensar, e só este
pode trazer a tranqüilidade.
Krishnamurti – Do livro: O Egoísmo
e o Problema da Paz – ICK - 1945
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