Suponho
que todos vocês estejam me aguardando falar...
Nós dissemos que falaríamos
esta noite sobre meditação. É um tema muito
sério e demanda atenção. E é um tema
para ser abordado não na multidão, não com
tanta gente, mas consigo mesmo. Temos que adentrar em coisas que
exigem paixão, muita concentração, energia
e uma mente realmente religiosa, não no sentido ortodoxo
da palavra – pertencer a alguma crença organizada,
igreja ou seguir alguém – mas usando essa palavra
para descobrir por nós mesmos a verdade em nossa vida diária,
o que é, aliás, o significado da palavra ‘filosofia’:
o amor pela verdade – não a verdade abstrata, mas
algo para ser vivenciado no dia-a-dia, em nosso cotidiano.
E esta noite, se pudermos, vamos descobrir
por nós mesmos o que significa meditar. Primeiramente, a genuína
posição do alicerce de nossa conduta cotidiana em verdade é parte
da meditação. Em nosso dia-a-dia de comportamento e
relacionamento, viver de forma homogênea, harmoniosa e total,
sem qualquer contradição. E assim vivendo, cada dia
de nossas vidas é parte dessa coisa extraordinária
denominada meditação.
Aprofundando o alicerce, um alicerce que
não possa ser abalado por qualquer tremor interno ou externo,
por qualquer catástrofe ou crise interior, nossa existência
diária de ação e relacionamento
é parte da meditação. Bem, todos vocês
estão ouvindo e eu, lamentavelmente, estou falando. Eu gostaria
que vocês estivessem sentados aqui e eu sentado aí.
Então vocês descobririam por si mesmos, profundamente
o que é meditação, porque ninguém lhes
pode ensinar o que é. Nenhum livro, nenhum guru, não
há sequer uma alma no mundo que possa ensinar-lhes o que significa
meditação. Mas conversando a respeito, partilhando
isso que é indescritível, nesta atitude devemos começar
a desvendar, por nós mesmos, a beleza, o algo extraordinário
que brota da meditação. Mas para adentrar profundamente
a questão, devemos descobrir como viver um dia-a-dia que não
seja uma vida de abstração, de especulação,
não uma vida de aceitação da autoridade de outros,
mas uma vida diária de dor, sofrimento, agonia, medo – e,
em meio a isso, alcançarmos por nós mesmos a verdade.
Parece-me haver duas coisas muito importantes
para entender: a escolha e a vontade (desejo), porque toda a nossa
vida, todo o nosso cotidiano está baseado nestes dois princípios.
Escolha, discernimento – escolhendo entre isso e aquilo, entre
o falso e o verdadeiro, o não essencial e o essencial, o importante
e o não importante; e a completa estrutura da vontade – a
vontade de fazer, determinação, a busca acirrada; tem-se
que abordar e realmente compreender esses dois princípios,
não verbalmente, mas efetivamente. Por que fazemos escolhas
afinal? – Porque na escolha há
sempre conflito. Já haviam notado isso?
A escolha implica em dualidade: ‘isto’
e ‘aquilo’. E há dualidade? Ou há apenas
o fato e não o seu oposto? Uma grande quantidade de livros,
filosofias e idéias foram escritos a respeito da questão
da dualidade e o conflito entre as dualidades. Agora, eu questiono
se há dualidade afinal ou se há apenas ‘o que é’. É somente
quando não sabemos como lidar com ‘o que é’,
como ir além de ‘o que é’, que criamos
expectativas de que, conhecendo a oposição, possamos
usar o oposto para superar ‘o que é’. Bene? Estão
acompanhando? Isto é, quando há violência, seu
oposto é
a não-violência, paz, um estado mental no qual não
existe qualquer violência. O fato é a violência.
‘O que é’ é violência. O outro, o
ideal de uma mente onde não haja violência, é
inexistente, é uma abstração e, portanto, não
tem validade. O que tem validade é o fato, ‘o que é’:
violência. E se a mente souber como ir além disso, então
não existe oposição e o conflito se extingue
por completo. Estamos enredados em opostos: afeição
e aversão, amor e ódio, ciúme e a ausência
dele – esse completo corredor de opostos.
E os opostos sempre trazem conflito:
‘Eu gostaria de fazer isso, mas não tenho vontade de
fazê-lo’; ‘Eu gostaria de agir dessa forma, mas
não posso’. Então deve-se perceber claramente
este fato: existe tão-somente ‘o que é’
e não o seu oposto. Há somente a violência. O
ideal é ficção, especulação, abstração;
não é real. O que é
real é ‘o que é’. Quando você
percebe isso claramente, não existe escolha. A mente sem clareza
sempre escolhe; a mente confusa vai, inevitavelmente, escolher. Para
a mente que vê claramente, não há
qualquer escolha. Portanto, clareza não é o oposto
de ‘o que é’. A compreensão de ‘o
que é’ e a transcendência disso, produz clareza.
Por favor, não me deixem falar sozinho.
Não é nada divertido; posso fazê-lo em meu quarto.
Mas estamos trabalhando juntos, compartilhando. E quero dizer realmente
compartilhando, porque o mundo está
em tão completa desordem, tanta corrupção, tanta
falsidade, desonestidade. Deve haver uma profunda revolução
psicológica. E quando se sente a urgência disso, essa
extrema urgência conduz ao compartilhar. Então, por
gentileza, estamos compartilhando conforme prosseguimos –
agora, não amanhã, não quando formos para casa,
mas agora, sentados aqui, falando a respeito da questão de
que ação adotar. Estamos juntos nessa jornada investigatória.
Vocês sabem, quando fazemos coisas juntos há grande
vitalidade, um grande senso de unidade. Há grande beleza em
atuarmos juntos, o que é realmente co-operação – não
ao redor de uma idéia, ao redor de um líder ou de um
ideal, mas juntos na compreensão total da questão da
existência, que é muito complexa. E por causa dessa
complexidade, devemos abordá-la com simplicidade.
Então, onde há escolha deve
haver desordem. A mente que vê com clareza não escolhe;
age. É a mente que opta que não age. A ação
oriunda de tal escolha deverá levar, inevitavelmente, à confusão.
Se eu sei, claramente, o que fazer, não há dualidade
nisso; eu percebo com muita clareza.
E, como a mente que não vê
com clareza, que vive em desordem, vai livrar-se dessa desordem,
dessa confusão? Estão acompanhando? A ordem só
acontece quando compreendemos a desordem. Não se trata de
uma fotocópia e da aceitação de um padrão
do que é ordem. Vejam senhores, vivemos na desordem; nossas
mentes estão confusas, contraditórias, orgulhosas e
depressivas, infelizes, ansiosas e tudo o mais. Isso é
desordem. E não sabemos como fazer surgir a ordem. Portanto,
nós encarnamos a ordem, um projeto, um plano, um modelo de
ordem e tentamos viver de acordo com ele. Ao passo que, se você estiver
consciente da desordem, de como ela emerge e perceber sua complexidade,
então dessa desordem brota a ordem, sem planejamento, sem
programação, sem suposição. Está claro?
Então, o que
é a desordem? Esta é nossa única preocupação.
Na compreensão dela um senso de ordem extraordinariamente
preciso aflora.
Por que há desordem em nossas vidas?
Eu me pergunto se vocês já questionaram a si mesmos
a respeito. Desordem implica conflito, correto? Vocês sabem,
um neurótico não está em conflito. Compreendem?
Um homem desequilibrado, que se identifica completamente com uma
idéia, não está em conflito, não há desordem;
ele é isso. Ao passo que, para o homem absolutamente desequilibrado
há escolha, o que fazer; há
contradição, desejos antagônicos; e isso traz
confusão. Nossa educação, nosso modo de vida,
todos os temores – tudo isso é desordem.
Pode a mente observar essa desordem em
nossa vida, sem tentar mudá-la, porque se o fizer, estará
produzindo mais desordem. Já se você observa a desordem,
se apenas presta atenção a ela – sem qualquer
plano, sem qualquer repressão, sem qualquer desejo de alterá-la
– então nessa genuína compreensão, na
pura e simples observação dessa confusão, vem
a ordem, porque sua mente está encarando a desordem sem qualquer
escolha. Está apenas percebendo ‘o que
é’; portanto, olhando para ‘o que é’,
a mente pode transcender. O conflito só surge quando se tem
o oposto. Compreenderam tudo isso? Estamos juntos até
aqui? Estamos seguindo juntos, certo?
Então, quando você tem que
escolher, você está escolhendo o oposto da confusão,
da desordem. Escolha implica em dualidade e dualidade é
uma fuga de ‘o que é’. E para permanecer com
‘o que é’, para olhar para ‘o que é’
sem o seu oposto – para percebê-lo – você
precisa de energia. Correto? Veja, quando você tem uma oposição,
essa busca do oposto representa desperdício de energia. Você está apegado – a
alguém, a alguma idéia, alguma crença, tradição –
e, apegado, você não é capaz de transcender,
de ir além. Combatendo o apego, você pensa que vai livrar-se
dele pela busca do desapego. Portanto, você tem um conflito:
você está apegado e está buscando o desapego.
Isso é desordem; isso é desperdício de energia.
Já se você observa o apego, então, porque você não
está fugindo, você tem energia para perceber; você tem
toda essa energia para transcender
‘o que é’. Estão acompanhando? Senhor,
isso é fundamental, porque gastamos nossos dias, nossas noites
e nossos anos em conflito, em luta.
E há uma forma de viver onde não
exista um instante de luta, de conflito – que não signifique
vegetar ou adormecer – em que nunca se tenha a sensação
de confusão e desordem? Então isso está claro?
Para transcender ‘o que é’, você precisa
de toda energia, que é
dissipada no conflito entre os opostos. Não repita o que digo,
não decore como a um slogan. Outro dia alguém veio
até mim e disse ‘agora aprendi, memorizei que o pensamento
divide’. Ele tinha memorizado! Então, não decore
o slogan e não o repita; veja a verdade disso. Para ver a
verdade disso, você deve ter uma mente disposta, ávida,
apaixonada, para descobrir se é
possível viver sem a sensação de conflito
– jamais. Esse é o caminho para viver em paz..
O outro fator através do qual vivemos é a
atividade volitiva. Daqui a pouco, vocês verão que escolha
e vontade caminham juntas. Para nós a vontade, que é ‘fazer’ – ‘Eu
tenho vontade’ e ‘Eu não devo’ –
é uma forma de resistência. E onde há resistência
deve haver conflito. Certo? Se você é um tradicionalista,
e a maioria de vocês o é, você, instintivamente,
se oporá ao que está sendo dito aqui, porque você
está condicionado a aceitar a dualidade; você está
condicionado à prática da vontade. E quando você
ouve alguém dizendo ‘vontade é resistência;
vontade é conflito; vontade produz desordem’, você,
instintivamente, resistirá. ‘Você perguntará
‘ É possível viver sem a vontade?’ Entenderam
minha pergunta? E nós mostraremos a você que é
possível viver sem a vontade. Porque o exercício da
vontade é a substância do desejo. Vontade é
a essência do desejo: ‘Eu farei isso’, ‘Isto
deve ser feito’, ‘Eu não farei isso’. Tanto
a afirmação positiva quanto a negativa são formas
de exercício da vontade. E toda a nossa ação
baseia-se nisso ‘Terei êxito no mundo’; ‘Devo
ser digno’. Vocês sabem todas as coisas envolvidas na
ação da vontade.
Você já testemunhou a ação
da vontade em si mesmo? E já questionou, afinal, qual é
a necessidade da vontade? Quando você percebe algo muito claramente,
essa é uma ação de vontade? Entenderam a pergunta?
Veja, senhor, a vontade, enquanto ação,
é um modelo de conformidade, de submissão –
submissão a um padrão, a um ideal, a uma resolução.
Então, quando você compreende a completa estrutura da
conformidade, existe de fato uma ação de vontade? Quando
você vê algo com muita clareza, quando você
se vê diante do perigo físico, você não
age instantaneamente? Não há ação de
vontade então. Seus nervos reagem imediatamente. Correto?
Agora, existe uma ação na qual não exista a
vontade? Vontade é tempo. ‘Eu farei isso’
– demanda tempo. Portanto a vontade não envolve uma
ação no presente; ela é sempre futura. Então
vontade implica contradição. Certo?
Assim, a meditação na vida
diária é a ação na qual não existe
escolha ou vontade, porque você percebe tudo muito claramente.
Agora o que significa ver claramente? Como observar a si mesmo, a
uma nuvem ou a seu próximo claramente, não apenas visualmente,
mas com a clareza de uma mente ordenada, onde não há obscuridade
(Não, não é
‘como’. Perdão. Retiro essa palavra). É
a mente capaz de observar claramente, sem distorções?
Distorções existem onde existem
imagens, projeções, no relacionamento ou na ação.
Certo? Eu sou um parente seu, tenho uma relação com
você, tenho uma imagem de você. Essa imagem me impede
de olhar para você. Eu tenho conhecimento, experiência
do que você já me disse ou do que já fez a mim.
Esse conhecimento, essa opinião, esse
“pré-conceito” me impede de ver claramente
– correto? Compreenderam? Opinião, conclusão,
conceito, conhecimento impedem, no relacionamento, que se veja o
fato. E o que importa é ver claramente. Quando isso se torna
tremendamente urgente, então opinião, conclusão
e julgamento são postos de lado e aí, você
está olhando. Entenderam? Compreendeu, senhor? Estamos juntos
até aqui?
Veja, você tem opiniões, não
tem? Julgamentos, conhecimento, tanto tecnológico, quanto
no que tange a relacionamentos, memórias de relacionamentos.
É com essa memória que você olha. Com as conclusões
e imagens que tem, é assim que você olha e, portanto,
você não vê com clareza. Quando é urgente
ver com clareza, a intensidade, a paixão, a necessidade de
ver claramente, então não há lugar para opiniões,
conclusões e julgamentos. Certo? Você
vê a verdade disto: você não pode ver claramente,
quando existe o observador, que é o passado; e olhar sem o
observador. O observador é o eu: minhas opiniões, mágoas,
expectativas, ambições, todas as minhas mesquinharias.
Quando isso é dominante, quando isso aflora não há clareza
de percepção.
Então, você pode olhar para
seu próximo, em seu íntimo relacionamento com ele,
sem qualquer conclusão ou imagem? Agora você
escuta isso e diz que está correto, que corresponde à
verdade. Então você vai exercitar a vontade para alcançar
isso. Visto que estamos dizendo: não exercite a vontade, apenas
observe. Isto é, você tem opiniões, simplesmente
observe suas opiniões. Assista-as. E assistindo-as sem racionalizá-las
ou justificá-las, apenas testemunhando-as, você verá que
as opiniões não importam em absoluto. Conseqüentemente,
você é capaz de olhar claramente. Você compreendeu
o que significa olhar claramente – que é observar sem
a imaginação, sem o artifício do pensamento,
sem o eu sempre interferindo na observação.
Então, o comportamento na vida cotidiana é o
amor à verdade e ações que não se baseiem
na escolha e na vontade. Está
claro? Isso eu já expliquei. Esse é o fundamento. Se
isso não existir na sua vida, faça o que você
fizer – siga todos os gurus, todos os sistemas, siga suas próprias
idéias, enfim.... eu não sei, mas o que quer que você faça – você nunca
saberá o que é meditação. Você
estará apenas jogando com as palavras, enganando a si mesmo.
Isto é, você necessita assentar as bases de seu comportamento
nas relações. E o conhecimento é essencial não
nos relacionamentos, mas no desempenho de certas funções.
Certo?
Assim, prossigamos para descobrir o que é meditação,
vamos além. Primeiramente vamos descobrir o que ela não é.
Quando você
vê o falso como falso, isto é a verdade. Compreenderam
o que acabei de dizer? (breve pausa)Estou tentando descobrir o que
eu disse. Sim, vamos lá... Quando você enxerga o falso
como falso, isto é a verdade. Vejam a beleza disso: Quando
você enxerga o falso como falso, isto é a verdade. Quando
você mentir, enganar, quando for desonesto, corrupto, enxergue
isso; e essa é a verdade. Então quando descobrirmos
o que não é meditação, o que é falso
na meditação, então descobriremos o que é verdadeiro
nela. Entenderam? Do negativo para o positivo e não o contrário.
O controle, em qualquer de suas formas,
não é meditação. Controlar seus pensamentos,
corpo, instintos – controlar, reprimir – isso não
é meditação. O controle implica na figura do
controlador. O controlador é aquele que diz “devo aperfeiçoar
meus pensamentos”. Percebem? “Eu devo reprimir vários
pensamentos e adotar outro.”
Onde há divisão entre controlador e controlado há
conflito. Já percebeu o conflito que se instala em você
quando você tenta controlar? E toda a nossa tradição
diz que devemos controlar nossos pensamentos, sermos os senhores
de nossa mente. O senhor é um outro pensamento, um outro fragmento
de idéia que assume autoridade sobre os demais. Toda forma
de controle nega a sensibilidade, a inteligência, que são
requisitos para a meditação.
Vejam, austeridade. Vocês sabem o
significado dessa palavra, não? Seu significado deriva de “ash” (cinza),
vocês sabem, as cinzas deixadas pelo fogo. A maioria de nós
tenta ser austero. Isto é: Viver com muita simplicidade, se
você é uma pessoa religiosa. Simplicidade significa
rudeza, aspereza, indiferença, insensibilidade (desumanidade),
porque você está
sendo tremendamente austero. Austeridade é um produto da vontade.
Vocês vêem, pelo mundo todo, os monges que aspiram ser
austeros; suas vidas são cinzas, vazias, estúpidas,
eles não experimentam a expressão, a fragrância
da beleza ou do amor. Portanto, não há lugar para o
controle numa mente religiosa, porque controle implica em repressão,
submissão, autoridade. Onde quer que haja autoridade, submissão
e todos os temores que lhes correspondem, não há
uma mente religiosa, essa mente, de fato, não sabe o que significa
meditação.
Então vocês podem viver
– por favor, ouçam – suas vidas diárias
sem qualquer controle: sem controlar seu apetite sexual, seus pensamentos,
desejos e ambições? Podem? E vocês só podem
fazer isso quando vêem claramente as implicações
do prazer, no sexo; quando vê claramente a posição
de autoridade e a imitação, naturalmente. Então
perceberá que pode viver de forma clara, sensível,
inteligente. São os tolos, os ignorantes que controlam, são
como cegos. O controle não se encaixa no processo de meditação.
Portanto, você pode deixá-lo de lado por completo.
Então, um método, um sistema,
uma prática, não é meditação,
pois implicam em submissão a um padrão definido por
alguém que diz saber o que é meditação
e ao dizer que sabe o que é meditação, mostra
que não sabe em absoluto. Atente para um homem que diz
“eu sei”, ele perdeu todo o senso de humildade. Quando
alguém diz “eu sei” , ele deixou de aprender.
A iluminação não
é um fim – estático. É um infinito mover-se
no amor. Oh, vocês não conhecem nada sobre tudo isso...
Sabem, esta é a maior das tristezas do mundo
– que alguém queira transmitir algo tremendo, com todo
o seu coração e mente, e vocês não o recebam.
E essa tão grande mágoa não é
por quem lhes transmite, mas por vocês próprios. Métodos,
um sistema, um padrão, adeptos, obediência, tudo isso
implica em submissão, em algo a ser alcançado com um
fim determinado, algo permanentemente lá –
que significa tempo. É a iluminação, a sabedoria
a clareza da verdade, uma questão de tempo ou ela está
lá para vocês verem? E seus olhos estão fechados
enquanto seguem métodos, sistemas, mantrayoga e todo o absurdo
que vêm ocorrendo nesse país e que agora está sendo
levado para outros. Meditação não é controle,
não é prática, meditação não é a
prática da atenção ou da consciência.
Agora, o que é meditação?
Se nada disso é meditação, então o que é?
Vocês entendem? Espero que estejam acompanhando, não
apenas aceitando verbalmente, mas acompanhando com todo o seu coração,
sua paixão, seu interesse. O que é meditação?
Quando a mente está
absolutamente silenciosa, sem planejamento, sem disciplina, não
como resultado de interminável prática, esforço,
conflito, dor e tristeza infinitas – isso não é
silêncio. Este é o silêncio de uma idéia
– que não tem qualquer validade. Então, a mente
que abandonou tudo o que é falso que um homem pôde encontrar:
todas as ilusões, mitos este homem cultivou em seu desespero,
em seu medo, em sua busca de prazer –
quando você abandona tudo isso, porque percebe a sua falsidade
e, portanto, a verdade disso – só então você
pode prosseguir em descobrir o que é meditação.
Vê-se claramente que o pensamento
nunca é novo. O pensamento nunca pode trazer liberdade, porque
todo ele é proveniente do passado: memória, experiência,
conhecimento. Pensamento é tempo.
Podem a mente e as células do cérebro,
que são produtos de nossa evolução no tempo,
podem elas e a mente, isto é, o corpo, o movimento do desejo,
tudo isso em conjunto, estar em completo silêncio? Isso só pode
acontecer quando você compreende o valor do pensamento – sua
importância e sua insignificância. Sem compreender a
estrutura e a natureza do pensamento, você
não atingirá esse silêncio, natural e facilmente.
O silêncio é necessário.
Quando você vê uma nuvem e a luz nela projetada, se sua
mente estiver divagando, especulando, você não poderá realmente
ver a beleza da nuvem. Entendem? A mente deve estar quieta. E ela
estará quando você negar ou abandonar controle, autoridade
e todas essas coisas que o homem instituiu para encontrar a verdade
ou a iluminação
– que são todas produtos da mente e, portanto, do tempo.
Para encontrar o que está além do tempo, das medidas,
o que não pode ser descrito, a mente deve estar em completa
quietude. O cérebro exige absoluta segurança, de outro
modo ele não pode trabalhar livremente, efetivamente. E só a
mente completamente segura, as células cerebrais em total
segurança, que podem operar sem atrito. As células
do cérebro contêm memória, armazenam memória
e a reação em conformidade com essa memória
é o pensamento. O pensamento inventa formas de segurança:
uma crença, uma nação, um ideal, um guru. Essa
segurança criada pelo pensamento é insegura, porque
envolve medo, prazer, tempo. Estão acompanhando?
Quando você percebe isso, há
segurança na observação e no aprendizado, que
são atos de inteligência. Na inteligência há total
e completa segurança. E essa inteligência brota quando
você observou todas essas coisas que são ignorância.
Compreenderam? Enfim, respondam, por favor –
Compreenderam? Se não alcançaram a profundidade disso,
apenas ouçam. Existe segurança na completa inteligência.
Essa inteligência não é
minha ou sua. É inteligência. E nela há segurança.
Então as células cerebrais se acalmam. Porque a mente é capaz
de observar o que é falso e porque percebe o que é falso
há inteligência, e nela há segurança.
Então a mente, naturalmente, facilmente, suavemente, sem qualquer
esforço, torna-se extraordinariamente quieta. E nesse silêncio
da mente não existe o tempo. Não é uma questão
de se “a mente pode sustentar, manter ou continuar em silêncio?”
Este é o desejo do pensamento que busca o silêncio como
a um prazer. Portanto, nesse silêncio não há
quem experiência, nem quem observa, mas somente a qualidade
do total e absoluto silêncio. Nesse silêncio, a porta
está aberta. E o que repousa além dela é
indescritível, não pode ser traduzido em palavras.
Tudo o que você precisa fazer é ir até a porta
e abri-la. Essa é sua responsabilidade como ser humano. O
conjunto de tudo isso é meditação –
a absoluta quietude do corpo, a absoluta quietude de uma mente que é totalmente
religiosa, em que não existe o menor traço de violência,
conflito. Violência existe, quando existe vontade. E quando
você compreender tudo isso, quando tiver vivido o cotidiano
disso, então você chegará até a porta
e, ao abri-la, vai descobrir. Abra a porta – o que além
dela repousa
é indescritível.
AUDIÊNCIA (A): Senhor, posso fazer
uma pergunta? Quando você diz “o estado de completa ausência
de pensamento” ou “a mente ficando completamente silenciosa”,
você quer dizer que deve-se transcender todos os níveis
de consciência e tornar-se um com a mente ou consciência
universal? Isso é o que você chama de “completa
consciência”? A segunda parte da questão é...
K: Só um momento, senhora. Não
divida em primeira e segunda partes, porque eu tenho que traduzir
ou repetir o que foi dito. Portanto, seja objetiva.
A: (Inaudível).
K: Não consigo ouvi-la, senhora.
A: (Continuando a falar mais alto, porém
ainda inaudível).
K: Desculpe-me...
Agora, eu me pergunto – apenas ouçam,
por favor, alguém fará uma pergunta, tudo bem, por
favor, façam a pergunta, mas um momento –
estão suas mentes silenciosas? Neste silêncio, vocês
tiveram tempo de fazer a pergunta? Suas mentes estão completamente
silenciosas e vocês percebem a beleza desse silêncio?
Se isso não estiver acontecendo agora, vocês não
podem ir para casa e deixar que aconteça. Pois não,
senhora.
A: Senhor, quando você fala sobre
o estado de completa ausência de pensamento ou ficar completamente
silencioso, você quer dizer que deve-se transcender todos os
níveis de consciência e então atingir isso? Isso é o
mesmo que iluminação? É o mesmo que mente universal?
K: Ho, ho, ho, ho...agora nos perdemos.
Senhora, eu não sei o que é a mente universal. Você
tem uma idéia sobre uma mente universal e por essa razão
você pergunta “É o mesmo que mente universal?”
Certo?
A: Quando digo “mente universal”
quero dizer uma pessoa, digamos, uma criança de sete anos
que, sob hipnose, pode descrever o que Cleópatra fez...
K: Oh, meu Deus! Sob hipnose certas questões
são respondidas... Você foi hipnotizada? Veja, senhor,
a senhora fez uma pergunta que foi: ‘Independentemente, da
mente universal, da hipnose e de todas essas coisas aprendidas dos
livros e, talvez, de alguma pessoa hipnotizada que alguém
tenha visto; independentemente de tudo isso, pode a mente esvaziar-se
de todo esse conteúdo? Pode todo esse conteúdo armazenado
tão profundamente ser totalmente esvaziado?’ Essa
é uma de suas perguntas?
A: Sim, mas transcender todos os níveis.
K: Certo. E a outra parte da questão
é ‘Você conhece alguém que tenha feito
isso?’
A: Sim.
K: Adorável, não? (perdão,
meu pé ficou dormente (câimbra)). Vou responder a pergunta.
Pode a mente investigar? – investigar significando rastrear,
ir atrás de algo. Na investigação, aprender.
Aprender é diferente de acumular. Entende? São duas
coisas diferentes. Acúmulo de conhecimento é
diferente de aprendizagem e isso deve ser entendido bem claramente.
Quando você aprende uma língua, você está
acumulando palavras naquela linguagem: verbos e todo o resto. Quando
você aprende a correr num carro, você o dirige, adquire
experiência e, conseqüentemente, conhecimento.
Quando você aprende sobre computadores,
você entra nisso e aprende e obtém conhecimento, certo?
Quando você está aprendendo sobre si mesmo
– por favor, ouçam - Quando você está
aprendendo sobre si mesmo e obtém conhecimento sobre si mesmo,
com esse conhecimento, você enxerga mais profundamente seu
interior. Portanto, você olha para si mesmo com tudo o que
foi acumulado no passado, a despeito de não estar aprendendo
sobre si mesmo – o que muda continuamente. Compreende? Vê a
diferença entre aprender e acumular conhecimento? O acúmulo
de conhecimento é essencial para fazer qualquer coisa. Mas
para aprender sobre si mesmo, qualquer acúmulo impedirá o
aprofundamento. Pesquisar significa ser livre para olhar, para observar,
para investigar – certo? Agora, nós estamos pesquisando
a questão de se a mente pode esvaziar-se de todo esse conteúdo
que armazena tão profundamente, tanto consciente quanto inconsciente.
Está
claro? É essa a pergunta, senhora?
A: Sim, senhor. Obrigada.
A: (Outro ouvinte): Senhor, em uma de suas
exposições...
K: Senhor, eu não... Aquela senhora
fez uma pergunta, senhor. Eu apenas estou repetindo e explicando
a pergunta, nós não a respondemos ainda. Meu Deus!
Estamos tão ocupados com nossas próprias questões
que não ouvimos a mais ninguém. E você está
aprendendo sobre si mesmo, compreende, senhor? Você está
aprendendo sobre si mesmo e ainda não quer escutar aos outros.
Veja, a questão implica muitas coisas:
a mente consciente, a mente inconsciente, as muitas camadas que armazenam
várias experiências, camadas que herdaram experiências,
conhecimento; camadas que contêm o conteúdo hereditário
e daí para frente. Tudo isso pode ser esvaziado? – não
por análise, pela análise, como dissemos: paralisia
pela análise. Certo? Se isso está
claro, não precisamos entrar na questão da análise.
Então o que a mente faz ou não faz com esse conteúdo?
Se análise, introspecção, investigação
– tudo isso – envolve tempo, tudo isso envolve divisão
e, portanto, conflito, se tudo isso não é –
tudo isso é falso e, portanto, não verdadeiro –
então, o que a mente faz? Como a mente despertará
todas as camadas para vê-las sem o fator tempo? Compreenderam
a questão? Para saber isso, sua mente que observa deve ser
atemporal, certo? É simples assim. Se a mente busca com um
elemento temporal, não lhe é possível expor
todo o conteúdo. Mas se a mente está livre dessa qualidade
de “temporalidade” como “o investigador”,
“o observador”, “o passado” e tudo o mais,
se essa mente é muito clara e atemporal, então –
por favor, ouçam – então não há
necessidade de explorar; a mente é o seu conteúdo e
portanto está livre deste conteúdo. Captaram?
A outra questão é: “Você
conhece alguém que tenha feito isso?” Certo, senhora?
A: Sim, senhor.
K: Por que a pergunta? Por que a pergunta?
O que importa não é se alguém conseguiu ou não
fazer isso, mas se você consegue. Certo?
A: É apenas para ter um parâmetro
e saber quão longe estou do mais iluminado.
K: Oh, como somos tolos. Depois de tudo
isso, você fala sobre como está distante em sua busca
– comparando a si mesma com alguém que você
imagina ter alcançado. E todo o tempo foi dito: ‘Não
meça, não compare, não imite.’ Senhores,
quando a verdade surge, é incomparável, não
é sua ou minha; a verdade é o que é e o que
está além disso. Você está se comparando
com o que pensa a respeito de uma pessoa que você supõe
que tenha alcançado a iluminação (o que quer
que isso possa significar) – para ver a verdade disso: quão
falso isso é. E quando você enxerga a verdade, você
não se compara a ninguém mais.
A: Senhor, esse é o único
caminho que conheço para descobrir, como não conheço...
Então tenho um parâmetro.
K : Sim, eu compreendo. A senhora disse
“Eu só perguntei, porque não sei”. Correto?
A: Correto.
K: Por que não permanece não
sabendo? O que é isso que você quer saber? Por favor,
atenção. O que é isso que vocês querem
saber? Você – todos vocês – querem saber.
O que é isso que vocês querem saber?
A: (outro ouvinte) Perdoe-me, o que
é isso tudo que você nos esteve dizendo se não
há nada para ser dito?... Essa é a razão pela
qual viemos até aqui. Eu vim aqui para saber como buscar.
K: O que está nos dizendo? –
essa é a questão. Desisto... Senhores, senhores, o
que é isso que vocês querem saber? – Como viver?
A: Como buscar.
K: Eu falei, explanei toda a última
hora. Senhores, senhores, o que é isso que vocês querem
saber? Já perguntaram a si mesmos o que é
isso que vocês querem saber? – se há vida após
a morte; se Deus existe; se serão nobres. O que é
isso que vocês querem saber na vida? Por que essa ânsia
por ‘saber’? Respondam a vocês mesmos, senhores.
O que é isso que vocês querem saber?
A: Como libertar-se de si mesmo.
K: Como libertar-se de si mesmo! Como libertar-se
de si mesmo – quer saber? Muito simples: não pense em
si mesmo. Certo? Senhores, eu passei por tudo isso.
Vejam, senhores, uma mente livre usa o
conhecimento, mas é sempre livre, vazia. A mente cheia, a
mente que procura livrar-se de crenças e medos; a mente que
está sempre se comparando com os outros não
é uma mente livre. Quando a mente é livre não
há nada para saber, exceto como viver, como atuar num mundo
de atuações.
Nova Déli,
19 de novembro de 1972.
Fonte: http://krishnamurti.org.br/cne/cne006.html |