Todavia, como se pode expressar
a relação do homem com o trabalho? Como se pode afirmar
que, o que torna o homem o que ele pode-ser é também
trabalho? E o que é o trabalho do homem uma vez que ele na
natureza é o único ser que tem consciência de
sua capacidade de produzir?
Pretendo tratar da questão do trabalho do
trabalho do homem, como praxis, a partir
das teses de Marx e Engels contra Feuerbach, como aquilo que confere
sentido a existência humana, como ação transformadora
das condições materiais e imateriais da vida; e os
saberes produzidos pela sociedade como o trabalho humano de descoberta.
Inicialmente, eu gostaria de pensar o homem.
O que é o homem? Elegi a perspectiva freudiana, para compreender
o indivíduo e como esse indivíduo afeta e é
afetado pelo modo de ser do trabalho.
Para a Psicanálise, o homem é
a soma de seus desejos inconscientes, impulsos que desconhecem barreiras,
rompem limites na busca de sua satisfação. As regras
são normas repressivas que controlam esses impulsos inconscientes.
A história de cada um é marcada pela sexualidade
insatisfeita na sua ânsia de realização obstruída
pelos valores sociais. Embora isso não implique em ausência
de regras. Prazer não é expressão das pulsões,
mas a própria pulsão ressignificada. É nesse
cenário que vamos encontrar na Psicanálise o conceito
de trabalho como um estruturante psíquico.
Segundo Mendes, “para Freud, trabalhar
e amar são os dois caminhos para a felicidade”. O trabalho
tem um papel tão importante na vida do homem para confirmar
sua existência, que se transforma em fonte de sofrimento, quando
não é atingido o seu propósito de gratificação
da pulsão por um dos caminhos mais evoluídos: o processo
de sublimação.
Ainda citando Freud, Mendes mostra como as pulsões
influenciam, juntamente com as condições socioprofissionais
e culturais, o prazer-sofrimento no trabalho. E que essa energia
pulsional investida durante as fases de desenvolvimento da personalidade
e no processo de socialização da criança tem
importante papel na vida adulta em seu trabalho. Logo, o trabalho
surge como um dos caminhos capazes de gratificar e frustrar as energias
pulsionais, ficando a cargo do processo de sublimação
a mediação entre as pulsões e o trabalho .
Freud enfatiza a tendência humana ao principio
do prazer, embora essa tendência tenha como contrapartida a
oposição de forças tais que a tornam perigosas
à autoconservação do indivíduo face
às dificuldades do ambiente externo. Entre essas forças
destacam-se: o adiamento da satisfação do prazer, o
abandono do propósito do prazer, a aceitação
do sofrimento como um caminho para a obtenção do prazer.
O trabalho ainda é considerado como uma pressão da
necessidade de produção da existência. Isso pode
dever-se tanto às condições impostas pelo trabalho,
como as condições psíquicas do indivíduo
que resultam nos mecanismos de defesa para suportar o sofrimento
ou na incapacidade de trabalhar. As pulsões sexuais e agressivas
convivem com as regras e normas no ambiente de trabalho, nesse processo,
o trabalho ajuda ao indivíduo a reagir de forma mais saudável
aos apelos pulsionais. Desse modo, o trabalho passa a ser um fator
importante para a manutenção do equilíbrio psíquico.
A atividade profissional quando escolhida com
base nas inclinações pessoais proporciona meios à
sublimação. Esse processo de sublimação
manifesta-se na criatividade, inovação e na criação
de oportunidades, evidenciando a gratificação da pulsão.
Sendo o trabalho um meio de gratificação pulsional,
o prazer no trabalho passa a ser um dos elementos essenciais do equilíbrio
psíquico. É que o trabalho cria identidade social.
Transcende à necessidade de sobrevivência, vai além
do conceito de emprego, porque faz o homem ver-se como agente transformador
do ambiente em que vive, sentir-se valorizado e reconhecido, compreender-se
como artífice de seu próprio destino. Isso é estrutural.
Talvez isso responda o desespero que acomete o desempregado e faz
com que, mesmo em condições humilhantes, a maioria
dos humanos prefiram manter-se em empregos, independentemente do
nível salarial e da necessidade de sobrevivência. Não é apenas
uma questão de valores é
a própria necessidade intrínseca à condição
humana. Assim como a criança tem a necessidade de brincar,
o adulto de trabalhar. O direcionamento dessa capacidade para as
forças produtivas da sociedade é outra história.
Outro fator a considerar é a alienação,
comum na relação de emprego, quando o objeto de trabalho
torna-se estranho ao trabalhador, des-humanizado, o próprio
homem se torna uma coisa, um objeto, um instrumento de produção,
pura e simplesmente. No desemprego que, dadas as condições
estruturantes do sistema capitalista que impõem ao homem a
transformação de sua capacidade laborativa em mercadoria,
impede que o homem se aproprie dos meios de produzir o seu próprio
trabalho, embora exija que o trabalhador mantenha o seu nível
de empregabilidade, como se isso garantisse a sua absorção
pelo mercado de trabalho.
O modelo capitalista avilta a condição
humana quando reduz o trabalhador a uma coisa que se oferece para
“fazer bicos” para garantir sua sobrevivência,
quando impõe a um homem o controle da produção
de outros homens, quando direciona a produção do pensamento,
dos saberes, para o lucro, para a realização dos interesses
de uns poucos, evidenciados no consumo desenfreado de uns, em detrimento
da extrema miséria de outros. A triste expressão “mercado
de trabalho” não é muito diferente do “mercado
de escravos”. A diferença aqui é que as cadeias
são mentais, forjadas na ilusão de liberdade e mantidas
pelas metáforas de “sucesso profissional”, “qualidade
de vida organizacional”, “responsabilidade social de
empresas” e todo um aparato de valores que mantém certas
estruturas organizacionais (empresas, escolas, igrejas) que mantém
o controle e a determinação da vida social. Tudo isso
é mantido por um conjunto de pressupostos, de crenças
que induzem os modos de olhar o mundo, de criar visões da
realidade, e de justificação para esse estado de coisas,
tornando real o que podemos chamar de falsas representações.
É Karl Marx, quem nos arranca desse devaneio
consumista produzido pelo delírio de poder materialista. E,
ainda que críticos de Marx (e os que o temem) tentem desqualificar
o seu pensamento ou os simpatizantes que o consideram utópico,
não é possível negar que vivemos em um mundo
criado por nossas representações, em uma realidade
artificial, condicionada pelo sistema de valores no qual somos lançados
pela corrente da vida. Estranhamente, nós, os únicos
seres da natureza que carregam consigo a necessidade de produzir
as condições de sua própria vida e transformá-la,
somos prisioneiros conscientes das armadilhas que nós próprios
criamos e mantemos.
Em A Ideologia Alemã,
Marx e Engels tecem severas críticas às falsas representações
que os homens têm criado de si próprios por meio dos
sistemas filosóficos. Essas falsas representações
são: Deus, dogmas religiosos ou não, saber absoluto,
consciência, enfim, as categorias, as idéias e conceitos
que o homem faz de si mesmo, da realidade e do devir. Tratando da
“putrescência do espírito absoluto” , logo
no primeiro capítulo, Marx denuncia: “Os industriais
da filosofia, que até aí tinham vivido da exploração
do espírito absoluto, lançaram-se agora sobre novas
combinações” .
O pensar filosófico em Hegel é
expresso pelo sentido dialético do estar no mundo. Esse estar
no mundo impõe ao homem uma realidade que precisa constantemente
ser superada para que ele possa afirmar-se. Essa realidade deixa
de ser constituída por fatos para ser estruturadas por processos
que geram diferenças ou contradições gerando
relações entre o geral e o particular. Mas, a dialética
não estrutura apenas a realidade. Dá-se o mesmo com
o conhecimento. Na relação desigual entre sujeito-objeto
impõe-se um processo de transformação, que sintetiza
a identificação de um com o outro. É
o espírito superando a realidade que o transforma. Assim,
a filosofia deixa de ser um pensar a respeito do ser, do real, do
homem, do conhecer, para ser o espírito o que filosofa. A
prática, com Hegel, toma um novo sentido (pelo menos é
o que sinto), deixa de ser um fazer (no sentido de pôr em prática)
para ser um “ser” – “aquilo que é realmente”, “ser
a própria prática”. O espírito parece
deixar de ser algo que está contido em um todo para ser o
próprio todo que contém tudo e se movimenta em direção à ...
ao que será... ao que virá... a si mesmo.
Para o pensamento hegeliano, filosofia e religião
têm os mesmos conteúdos expressos sob a forma de conceito
para a primeira e representação para a segunda. O pensamento
de Hegel dividira-se em duas correntes: a direita,
que sustentava ser o estado prussiano e suas instituições
a mais alta expressão da racionalidade do espírito
e a esquerda para quem a dialética
histórica devia negá-lo, superando-o, do ponto de vista
político; quanto à questão religiosa, a direita
assumira as categorias hegelianas para defender e justificar os dogmas
do cristianismo enquanto a esquerda, entendia a religião como
representação, por meio da qual o homem manifesta as
suas aspirações mais profundas, conhece a si mesmo
e não a Deus como pretende e compreende a sua própria
história.
Feuerbach pertence à esquerda hegeliana.
A crítica de Marx a Feuerbach é dirigida basicamente à identidade
da essência do homem e a essência da religião.
Segundo Feuerbach, o que revela a essência
do homem é o objeto com o qual se relaciona e é esse
objeto do qual o homem tem consciência, que dá ao homem
a consciência de si mesmo, do seu Eu verdadeiro. Portanto,
o que o homem atribui a Deus é a sua própria essência
externalizada, liberada e adorada como se fosse algo fora
de si mesmo, é o ser do homem divinizado,
é o seu próprio ser liberto das contradições
impostas pela sua condição humana. Assim a teologia
é uma antropologia.
Em sua obra A Essência do Cristianismo,
tratando da essência do homem e da religião, Feuerbach
afirma:
A essência do homem, em contraste
com o animal, não é apenas o fundamento, mas
também o objeto da religião. Mas a religião é
consciência do infinito; assim, não é e
não pode ser nada mais que a consciência que o
homem tem da sua essência não finita, não
limitada, mas infinita.
Para Marx, o que revela a essência
do homem é a sua atividade produtiva. O homem, entre todos
os seres, é o que foi destinado a trabalhar e arrancar da
natureza para que ele possa existir, o que tem de produzir suas condições
materiais de vida, enquanto os animais reproduzem sua existência
de acordo com a natureza. Se, portanto, a sua essência está nessa
capacidade transformadora, a história será a história
dos seres humanos reais, portanto, as representações,
os conceitos, as idéias são produtos da atividade humana,
de acordo com o modo como
é organizada a atividade produtiva.
Conforme a segunda tese de Marx contra
Feuerbach, não é o pensamento que determina a realidade,
e sim a realidade que condiciona o trabalho do pensamento.
Tese 2: A questão
de saber se o pensamento humano pertence a verdade objetiva
– não é uma questão de teoria, mas
uma questão prática.
É na práxis que o homem tem de comprovar a verdade,
isto é, a realidade e o poder, o caráter terreno,
do seu pensamento. A disputa sobre a realidade ou não-realidade
do pensamento – que está isolado da práxis
- é uma questão puramente escolástica.
Ao colocar como escolástica a
questão da “querela” da realidade ou não
do pensamento, Marx traz-nos de volta ao modo como os saberes são
constituídos e a quem servem. Ao trazê-lo para o seu
lugar — a determinação das condições
da vida material, o trabalho humano de descoberta surge como uma
condição ontologicamente existente. A prática
é o saber socialmente construído, articulado.
Conforme Dantas,
Idéias e concepções
de mundo nascem, portanto da historicidade de uma práxis
concretamente determinada, seja como sua racionalização,
sua autoconsciência, sua meta-narrativa, sua idealização,
sua mistificação ou, no limite, como sua problematização,
sua crítica, sua desconstrução e sua transformação.
Não há um estágio
de ignorância nem de saber absoluto, há a necessidade
de saber por natureza. O homem se acha em um ambiente no qual os
saberes se desenvolvem mediados pela linguagem. A linguagem também
é uma construção social e veicula o repertório
de conhecimentos necessários ao seu desenvolvimento. Até
questão do real, da percepção da natureza, que
parecem ser independentes do homem, são frutos coletivos do
modo como se desenvolveu a construção de um conceito.
Segundo Marx,
A produção das idéias,
representações, da consciência está
a princípio diretamente entrelaçada com a atividade
material e o intercâmbio material dos homens, linguagem
da vida real. O representar, o pensar, o intercâmbio
espiritual dos homens aparecem aqui ainda como efluxo direto
do seu comportamento material. O mesmo se aplica à produção
espiritual como ela se apresenta na linguagem da política,
das leis, da moral da religião, da metafísica,
etc .
Ou seja, esse desenvolvimento é
compartilhado, socializado, evidentemente, tributário de todos
os trabalhos desenvolvidos anteriormente por outros. Historicamente,
os saberes nascem da necessidade humana de conservar a existência
física, materializada no desenvolvimento das forças
produtivas, que transformam as condições da vida material
e impulsionam o desenvolvimento do pensamento na direção
das novas necessidades que por sua vez gerarão o desenvolvimento
de novas forças produtivas. Entre essas necessidades destaca-se
a necessidade de liberdade de pensar criativamente. Essa é
a práxis do pensamento do qual Marx fala em O
Capital, daquilo que necessariamente é o desenvolvimento
da capacidade de transformação da vida humana que
é o trabalho em si mesmo, trabalho - atividade produtiva que é a
própria essência do homem.
Mas esse esforço situar-se-á
sempre no reino das necessidades. Além dele começa
o desenvolvimento das forças humanas como um fim em
si mesmo, o reino genuíno da liberdade, o qual só
pode florescer tendo por base o reino da necessidade.
O desenvolvimento das forças humanas
como um fim em si mesmo, supra-citado, leva ao homem a libertação
do domínio das forças da natureza que o esmaga e que
ele atribui a seres sobrenaturais. Se buscarmos a gênese das
religiões, e avaliarmos a relação do homem com
a natureza, concluiremos que o trabalho do homem nas comunidades
primitivas é distinto da noção de trabalho que
temos hoje; o trabalho faz parte da vida como uma condição
ligada a sua necessidade de assegurar as condições
de sua existência material. A religião é a expressão
orgânica das condições da produção
e de sua organização social. As terras e os meios de
produção, pertencendo à comunidade estruturavam
as condições de vida nas comunidades primitivas. A
consciência mítico-religiosa nasce do sentimento de
fazer parte de um todo, as formas que manifestam essa consciência
variam de comunidade para comunidade.
Tese 8: Toda vida
social é essencialmente prática. Todos os mistérios
que levam a teoria ao misticism(o) encontra a sua solução
racional na práxis humana e no compreender desta práxis.
Ao percorrer o caminho que levou a formação
das classes dominantes, particularmente das castas sacerdotais,
é que vamos entender as formas de dissolução
das comunidades primitivas e como as religiões se converteram
em instrumentos de dominação. As causas da dissolução
das comunidades primitivas se encontram na super-população
motivando as guerras de conquista e defesa, e conseqüentemente,
o nascimento da mão-de-obra escrava; a incorporação
da cultura do povo escravizado; a divisão social do trabalho,
o aparecimento de classes e suas relações de poder.
O desenvolvimento do comércio determinou o aparecimento da
moeda e da escrita. Como regulador dos interesses surge o Estado
legitimando a sociedade patriarcal fundada em relações
de força e poder, submetendo a mulher à condição
de serva do homem. O que vemos, enfim, é a separação
sistemática entre a produção e do trabalho,
dando origem à exploração do homem pelo homem,
a divisão do trabalho entre manual e espiritual e, naturalmente,
sistematização de conhecimentos religiosos como forma
de controle social determinado pela casta sacerdotal. Em alguns casos,
como no Ocidente, a religião dos escravos ao se tornar a religião
oficial do império açambarca todas as áreas
do conhecimento ditando o modo de produção social da
vida pelos séculos seguintes.
Inequivocamente,
Os pensamentos da classe dominante
são também, em todas as épocas, os pensamentos
dominantes, em outras palavras, a classe que é o poder material dominante
numa determinada sociedade é
também o poder espiritual dominante. A classe que dispõe
dos meios de produção material dispõe
também dos meios da produção intelectual,
de tal modo que o pensamento daqueles aos quais são
negados os meios de produção intelectual está submetido
também à classe dominante. Os pensamentos dominantes
nada mais são do que a expressão ideal das relações
materiais dominantes; eles são essas relações
materiais dominantes consideradas sob forma de idéias,
portanto a expressão das relações que
fazem de uma classe a classe dominante; em outras palavras,
são idéias de sua dominação.
Ao pensar sobre o surgimento da Filosofia,
compreendemo-lo não como um “salto”, “um
milagre grego” e sim, como fruto das condições
materiais necessárias ao desenvolvimento das condições
propícias para a investigação da natureza.
É fundamental distinguir essa possibilidade como condição
humana e também os seus produtos: a sistematização,
a atividade, o verbo, a criação humana. As vertentes
filosóficas e científicas que compõe a História
do Pensamento não é trabalho de mentes privilegiadas
motivadas pelo desejo de conhecer pura e simplesmente, note-se que
os filósofos são homens livres que dispõe do
tempo livre necessário à investigação
da natureza. A filosofia, então, aparece como possibilidade
da atividade de pensar e sua força não está
na elaboração sistematizada, mas no vigor da própria
atividade, o que não deve ser confundida com metodologia filosófica.
É interessante notar que nos primórdios
da história da filosofia ocidental não há acúmulo
de conhecimento. Cada pensador compõe o seu próprio
sistema, porque enxerga a realidade como um todo e o que se busca
são explicações para essa unidade na diversidade.
Interessam as questões sobre a natureza, sobre o homem e sobre
o conhecimento em si mesmo, daí o desenvolvimento da física,
da ética e da lógica, cuja noção desses
saberes é desenvolvida pelos gregos. Os filósofos gregos
distinguiam-se pela sua capacidade de promover a articulação
entre os saberes já produzidos e, ao mesmo tempo, dominar
as ciências dos homens livres de sua época que decidiam
sobre os rumos da cidade e teorizar sobre tudo o que pudesse ser
conhecido em sua busca pela verdade. Historicamente encontraremos
também os filósofos gregos em atividade demitificadora,
apresentado explicações lógicas e racionais
para os saberes constituídos, explorando os limites dos saberes
de seus contemporâneos, expondo as contradições
das tradições. O filósofo, na cultura grega,
é o homem que atingiu um alto grau de liberdade e o seu ideal
de vida é a busca pela sabedoria, organizando uma compreensão
do mundo que traga em si mesma a possibilidade de crítica
dos saberes produzidos, por isso não se move por interesses
particulares.
Todavia, o desafio lançado por Marx
na sua última tese contra Feuerbach leva-nos a algumas considerações
sobre o trabalho do filósofo.
Os filósofos têm apenas interpretado o
mundo de maneiras diferentes, a questão é transformá-lo.
Quando o filósofo se limita a interpretar
o mundo, legitima o discurso que controla não apenas a produção
material, mas também a produção imaterial, entendida
como todo gênero de conhecimento, arte, e mantém as
estruturas sociais vigentes. O trabalho do filósofo é
essencialmente transformador, porque põe em relevo o trabalho do
trabalho do homem e desnuda as condições que submetem
um homem a outro, entenda-se filósofo como o que, independentemente
da validação acadêmica, ama o conhecimento e
questiona a ordem estabelecida. A práxis filosófica
mostra a essência do homem no trabalho que realiza e traz à luz
as condições para que ele possa construir sua própria
identidade, e isso depende das condições que determinam
o exercício de sua atividade produtiva. O trabalho do filósofo é
questionar o modo de produção que reduz o homem a mero
objeto, alienado de sua condição de sujeito do processo
produtivo, desumanizado, cindido em seu próprio ser e em sua
relação com os outros homens.
O trabalho e a existência humana
são indissociáveis por isso o trabalho do pensamento
é clarificar essa relação para que o homem possa
reconhecer que é o seu trabalho que lhe proporciona não
só os meios de satisfazer as necessidades básicas de
sobrevivência, mas também a estruturação
psíquica, a transformação do ambiente em que
vive e também a realização pessoal. Vai além
de uma ocupação propriamente dita, é o ambiente
social para os adultos, por isso as condições de trabalho
são determinantes na qualidade de vida. Condições
de trabalho significam segurança, oportunidades de crescimento
profissional, descanso, salários justos, saúde, desenvolvimento
de suas capacidades criativas. A qualidade de vida como é
posta no nosso modo de produção capitalista é
uma falácia mascarada pelo conceito de resposta às
necessidades psicológicas do trabalhador, uma vez que é
impossível satisfazer a essas necessidades psicológicas
porque o trabalho não é livre, e até o suposto
lazer está permeado pelos modos de direcionamento do capital,
Entre essas necessidades, está a de assegurar o próprio
crescimento e o de sua família.
O trabalho pode ser considerado um fator
de sofrimento, ao transformar-se em um elemento restritivo à
realização humana, à liberdade, à expressão
da subjetividade, nesse caso, não é só fonte
de alienação, mas de sofrimento pessoal, de péssima
qualidade de vida, pois, a não-sublimação de
suas pulsões, ou seja, a não-satisfação
pode levar o indivíduo ao adoecimento, manifestados, em muitos
casos, nas patologias relacionadas com o trabalho. É fruto
da divisão do trabalho, que separa trabalhador e trabalho,
na qual o conjunto de valores que norteia a relação do
trabalhador e trabalho caminha na direção da autodestruição,
conforme podemos atestar no modo de ser do trabalho nas sociedades
contemporâneas.
O médico Herval Pina Ribeiro faz
uma relação entre o capitalismo industrial e os modos
de adoecimento da classe trabalhadora a que ele denomina violência
explícita ou oculta no trabalho. A violência explícita
é caracterizada pelo atingimento direto do corpo do trabalhador,
e isso vai desde os baixos salários que impõem as enfermidades
decorrentes da má nutrição, das péssimas
condições de vida, da inalação de resíduos
tóxicos, até as tensões e pressões que
lesionam os músculos, olhos, a pele, as articulações,
os nervos, o cérebro, o psiquismo. A violência oculta é evidente
nos modos de adoecer e morrer do trabalho “uma violência
abrandada, mais sutil, oculta e ocultada, tomando como exemplo os
bancos, o trabalho e a categoria bancária”.
Segundo Ribeiro,
O que determina a ocupação
ou profissão é a necessidade de o trabalhador
colocar-se no mercado de trabalho para prover a subsistência.
Não há escolha, e se não há, a
auto-responsabilização por “expor-se” no
exercício de determinado trabalho é um mito.
Não se é mineiro, ceramista, operário
da construção civil, metalúrgico e bancário
porque se quer, mas porque se precisa e essas são as
ocupações possíveis. Por seu caráter
nocivo, uma série de substâncias manipuladas ou
produzidas no trabalho têm efeito imediato e não
poupam ninguém.
No caso das doenças de trabalho
há a insistência de se estabelecer a relação
entre a causa material e o efeito. Isso tem por intenção,
normalizar as relações entre capital e trabalho e diminuir
os efeitos na saúde do trabalhador, no meio-ambiente e à população.
Essas relações de causalidade são estabelecidas
com base em níveis de exposição máxima,
fixadas por técnicos e pesquisadores dos órgãos
governamentais responsáveis pelo trabalho e previdência
social. Isso por si só, já direciona o resultado do
trabalho.
Após essas reflexões, não
podemos deixar de pensar também nos que estão impedidos
de trabalhar seja por enfermidades, deficiências incapacitantes
ou do desemprego estrutural, que particularmente considero a maior
chaga social. A miséria, em toda sua extensão, exprime
o modo de divisão do trabalho em nossa sociedade e revela
outra face ainda mais cruel: um círculo vicioso a arrastar
milhões de famílias, que por não terem o acesso
ao direito básico de asseguramento da vida por meio da atividade
produtiva, perpetuam a própria humilhação em
seus descendentes. É lamentável que crianças
— o futuro da humanidade, velhos — mãos que construíram
o hoje, gestantes — que trazem o amanhã em seu ventre,
homens válidos — que passam dias em extensas filas a
procura de trabalho vivam sem o mínimo de controle sobre a
própria vida, cresçam na incerteza do futuro e constituam
a grande massa dos excluídos tanto nas nações
pobres, quanto nas nações ricas.
Repensar o que chamamos civilização
é o próximo passo em direção a isso
é a garantia do futuro da humanidade por meio de ações
que favoreçam a prosperidade para todos, a sustentabilidade
e a segurança, por meio de um esforço conjunto de todas
as sociedades e culturas, do contrário, as gerações
futuras estarão comprometidas. E isso só pode ser efetivado
a partir da valorização da capacidade de ajuda mútua
que os seres humanos devem uns aos outros, mas também na previsão
e na provisão da satisfação das necessidades
básicas do ser humano, extensivamente aos demais seres da
Terra. Desse ponto de vista, o planeta deixa de ser uma fonte geradora
de recursos para ser uma mãe generosa que nos alimenta a vida
com a sua própria vida. Isso é
assegurar o direito mais básico, o direito à vida,
que se abre para o leque dos direitos individuais e coletivos.
Direitos implicam em responsabilidades,
é óbvio que numa sociedade individualista ao extremo
os direitos humanos não podem ser assegurados, porque a responsabilidade
individual é a base para a preocupação com o
outro.
Felizmente, cada apogeu traz em seu bojo
a própria decadência e cada crise é prenúncio
de uma nova oportunidade. O mal-estar de nossa civilização,
nauseada de si mesma e eivada de contradições, revela
as rachaduras provocadas pela própria insustentabilidade e
favorece à reflexão. É por isso que como uma
luz tênue a esperança estende seus braços e se
deixa alcançar pelos que trabalham por um mundo melhor. Até ontem
o trabalho era a expressão da própria inferioridade
espiritual, pouco a pouco, por meio das conquistas das classes trabalhadoras,
do avanço das ciências humanas e da reflexão
sobre a atividade humana, o trabalho foi deixando de ser mero instrumento
do homem para tornar-se humanidade do homem, aquilo que lhe é mais
próprio.
Mas o homem não se faz sozinho e
todo esse impulso renovador deve ser traduzido em consciência
política e social e deve ser direcionado para a mobilização
de todos os setores da sociedade para que seus componentes possam
determinar como deve ser escrita a sua própria história,
apenas desse modo, poder-se-á dizer que o trabalho revela
a essência do homem, conferindo sentido a sua existência.
Desse trabalho que é o homem fazendo-se a si mesmo. Esse
é o trabalho do trabalho do homem.
Quero concluir esse trabalho com uma afirmação
de Antunes:
Uma vida cheia de sentido fora do
trabalho supõe uma vida dotada de sentido dentro do
trabalho. Não é possível compatibulizar
trabalho assalariado, feitichizado e estranhado com
tempo (verdadeiramente) livre. Uma vida desprovida de sentido
no trabalho é incompatível com
uma vida cheia de sentido fora do trabalho. Em alguma medida,
a esfera fora do trabalho estará maculada pela desefetivação que
se dá no interior da vida laborativa.
Enfim, o trabalho do trabalho do homem
é a autoprodução de sua consciência.
BIBLIOGRAFIA
ANTUNES, Ricardo. Os sentidos
do trabalho. Boitempo. São Paulo. 2003
DANTAS, Rodrigo. Da Colonização
e da Emancipação do Pensamento. UnB.2003
FEUERBACH, Ludiwig. A Essência
do Cristianismo. trad. José da Silva Brandão.
Papirus. São Paulo.1997
MARX, Karl, ENGELS, Friedrich. A
ideologia alemã e teses sobre Feuerbach..
Editora Moraes. São Paulo.1984
MARX, Karl. Manuscritos econômico-filosóficos
e outros textos escolhidos. Trad. José Carlos
Bruni. Coleção Os Pensadores.1974.
MENDES, Ana Magnólia. Valores
e Vivências de prazer-sofrimento no contexto organizacional. Tese
de doutoramento em Psicologia. Brasília; Universidade
de Brasília, 1999.
REALE, Giovanni, ANTISERI, Dario. História
da Filosofia. Vol. III. Paulus. São Paulo.1991.
RIBEIRO, Herval Pina. A violência
oculta do trabalho. Fiocruz. Rio de Janeiro.1999.
Terezinha de Jesus é escritora,
palestrante, orientadora filosófica. Os temas de suas reflexões
são o problema da dor, terapia do autoconhecimento, família, ética
e espiritualidade.
Leia outros textos da autora:
contato:teresinhadejesus@uol.com.br
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