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O TRABALHO DO TRABALHO DO HOMEM
Por: Terezinha de Jesus*

O que é trabalho?

Conotativamente, trabalho relaciona-se com o fatigante, o exaustivo. Denotativamente, é qualquer atividade desde os processos fisiológicos, a ação de forças que se opõem para pôr os corpos em movimentos, o que provoca as transformações de um sistema, ao esforço físico e ao esforço intelectual. A natureza se mostra como trabalho constante para conservar-se ou renovar-se.

Todavia, como se pode expressar a relação do homem com o trabalho? Como se pode afirmar que, o que torna o homem o que ele pode-ser é também trabalho? E o que é o trabalho do homem uma vez que ele na natureza é o único ser que tem consciência de sua capacidade de produzir?

Pretendo tratar da questão do trabalho do trabalho do homem, como praxis, a partir das teses de Marx e Engels contra Feuerbach, como aquilo que confere sentido a existência humana, como ação transformadora das condições materiais e imateriais da vida; e os saberes produzidos pela sociedade como o trabalho humano de descoberta.

Inicialmente, eu gostaria de pensar o homem. O que é o homem? Elegi a perspectiva freudiana, para compreender o indivíduo e como esse indivíduo afeta e é afetado pelo modo de ser do trabalho.

Para a Psicanálise, o homem é a soma de seus desejos inconscientes, impulsos que desconhecem barreiras, rompem limites na busca de sua satisfação. As regras são normas repressivas que controlam esses impulsos inconscientes. A história de cada um é marcada pela sexualidade insatisfeita na sua ânsia de realização obstruída pelos valores sociais. Embora isso não implique em ausência de regras. Prazer não é expressão das pulsões, mas a própria pulsão ressignificada. É nesse cenário que vamos encontrar na Psicanálise o conceito de trabalho como um estruturante psíquico.

Segundo Mendes, “para Freud, trabalhar e amar são os dois caminhos para a felicidade”. O trabalho tem um papel tão importante na vida do homem para confirmar sua existência, que se transforma em fonte de sofrimento, quando não é atingido o seu propósito de gratificação da pulsão por um dos caminhos mais evoluídos: o processo de sublimação.

Ainda citando Freud, Mendes mostra como as pulsões influenciam, juntamente com as condições socioprofissionais e culturais, o prazer-sofrimento no trabalho. E que essa energia pulsional investida durante as fases de desenvolvimento da personalidade e no processo de socialização da criança tem importante papel na vida adulta em seu trabalho. Logo, o trabalho surge como um dos caminhos capazes de gratificar e frustrar as energias pulsionais, ficando a cargo do processo de sublimação a mediação entre as pulsões e o trabalho .

Freud enfatiza a tendência humana ao principio do prazer, embora essa tendência tenha como contrapartida a oposição de forças tais que a tornam perigosas à autoconservação do indivíduo face às dificuldades do ambiente externo. Entre essas forças destacam-se: o adiamento da satisfação do prazer, o abandono do propósito do prazer, a aceitação do sofrimento como um caminho para a obtenção do prazer. O trabalho ainda é considerado como uma pressão da necessidade de produção da existência. Isso pode dever-se tanto às condições impostas pelo trabalho, como as condições psíquicas do indivíduo que resultam nos mecanismos de defesa para suportar o sofrimento ou na incapacidade de trabalhar. As pulsões sexuais e agressivas convivem com as regras e normas no ambiente de trabalho, nesse processo, o trabalho ajuda ao indivíduo a reagir de forma mais saudável aos apelos pulsionais. Desse modo, o trabalho passa a ser um fator importante para a manutenção do equilíbrio psíquico.

A atividade profissional quando escolhida com base nas inclinações pessoais proporciona meios à sublimação. Esse processo de sublimação manifesta-se na criatividade, inovação e na criação de oportunidades, evidenciando a gratificação da pulsão. Sendo o trabalho um meio de gratificação pulsional, o prazer no trabalho passa a ser um dos elementos essenciais do equilíbrio psíquico. É que o trabalho cria identidade social. Transcende à necessidade de sobrevivência, vai além do conceito de emprego, porque faz o homem ver-se como agente transformador do ambiente em que vive, sentir-se valorizado e reconhecido, compreender-se como artífice de seu próprio destino. Isso é estrutural. Talvez isso responda o desespero que acomete o desempregado e faz com que, mesmo em condições humilhantes, a maioria dos humanos prefiram manter-se em empregos, independentemente do nível salarial e da necessidade de sobrevivência. Não é apenas uma questão de valores é a própria necessidade intrínseca à condição humana. Assim como a criança tem a necessidade de brincar, o adulto de trabalhar. O direcionamento dessa capacidade para as forças produtivas da sociedade é outra história.

Outro fator a considerar é a alienação, comum na relação de emprego, quando o objeto de trabalho torna-se estranho ao trabalhador, des-humanizado, o próprio homem se torna uma coisa, um objeto, um instrumento de produção, pura e simplesmente. No desemprego que, dadas as condições estruturantes do sistema capitalista que impõem ao homem a transformação de sua capacidade laborativa em mercadoria, impede que o homem se aproprie dos meios de produzir o seu próprio trabalho, embora exija que o trabalhador mantenha o seu nível de empregabilidade, como se isso garantisse a sua absorção pelo mercado de trabalho.

O modelo capitalista avilta a condição humana quando reduz o trabalhador a uma coisa que se oferece para “fazer bicos” para garantir sua sobrevivência, quando impõe a um homem o controle da produção de outros homens, quando direciona a produção do pensamento, dos saberes, para o lucro, para a realização dos interesses de uns poucos, evidenciados no consumo desenfreado de uns, em detrimento da extrema miséria de outros. A triste expressão “mercado de trabalho” não é muito diferente do “mercado de escravos”. A diferença aqui é que as cadeias são mentais, forjadas na ilusão de liberdade e mantidas pelas metáforas de “sucesso profissional”, “qualidade de vida organizacional”, “responsabilidade social de empresas” e todo um aparato de valores que mantém certas estruturas organizacionais (empresas, escolas, igrejas) que mantém o controle e a determinação da vida social. Tudo isso é mantido por um conjunto de pressupostos, de crenças que induzem os modos de olhar o mundo, de criar visões da realidade, e de justificação para esse estado de coisas, tornando real o que podemos chamar de falsas representações.

É Karl Marx, quem nos arranca desse devaneio consumista produzido pelo delírio de poder materialista. E, ainda que críticos de Marx (e os que o temem) tentem desqualificar o seu pensamento ou os simpatizantes que o consideram utópico, não é possível negar que vivemos em um mundo criado por nossas representações, em uma realidade artificial, condicionada pelo sistema de valores no qual somos lançados pela corrente da vida. Estranhamente, nós, os únicos seres da natureza que carregam consigo a necessidade de produzir as condições de sua própria vida e transformá-la, somos prisioneiros conscientes das armadilhas que nós próprios criamos e mantemos.

Em A Ideologia Alemã, Marx e Engels tecem severas críticas às falsas representações que os homens têm criado de si próprios por meio dos sistemas filosóficos. Essas falsas representações são: Deus, dogmas religiosos ou não, saber absoluto, consciência, enfim, as categorias, as idéias e conceitos que o homem faz de si mesmo, da realidade e do devir. Tratando da “putrescência do espírito absoluto” , logo no primeiro capítulo, Marx denuncia: “Os industriais da filosofia, que até aí tinham vivido da exploração do espírito absoluto, lançaram-se agora sobre novas combinações” .

O pensar filosófico em Hegel é expresso pelo sentido dialético do estar no mundo. Esse estar no mundo impõe ao homem uma realidade que precisa constantemente ser superada para que ele possa afirmar-se. Essa realidade deixa de ser constituída por fatos para ser estruturadas por processos que geram diferenças ou contradições gerando relações entre o geral e o particular. Mas, a dialética não estrutura apenas a realidade. Dá-se o mesmo com o conhecimento. Na relação desigual entre sujeito-objeto impõe-se um processo de transformação, que sintetiza a identificação de um com o outro. É o espírito superando a realidade que o transforma. Assim, a filosofia deixa de ser um pensar a respeito do ser, do real, do homem, do conhecer, para ser o espírito o que filosofa. A prática, com Hegel, toma um novo sentido (pelo menos é o que sinto), deixa de ser um fazer (no sentido de pôr em prática) para ser um “ser” – “aquilo que é realmente”, “ser a própria prática”. O espírito parece deixar de ser algo que está contido em um todo para ser o próprio todo que contém tudo e se movimenta em direção à ... ao que será... ao que virá... a si mesmo.

Para o pensamento hegeliano, filosofia e religião têm os mesmos conteúdos expressos sob a forma de conceito para a primeira e representação para a segunda. O pensamento de Hegel dividira-se em duas correntes: a direita, que sustentava ser o estado prussiano e suas instituições a mais alta expressão da racionalidade do espírito e a esquerda para quem a dialética histórica devia negá-lo, superando-o, do ponto de vista político; quanto à questão religiosa, a direita assumira as categorias hegelianas para defender e justificar os dogmas do cristianismo enquanto a esquerda, entendia a religião como representação, por meio da qual o homem manifesta as suas aspirações mais profundas, conhece a si mesmo e não a Deus como pretende e compreende a sua própria história.

Feuerbach pertence à esquerda hegeliana. A crítica de Marx a Feuerbach é dirigida basicamente à identidade da essência do homem e a essência da religião.

Segundo Feuerbach, o que revela a essência do homem é o objeto com o qual se relaciona e é esse objeto do qual o homem tem consciência, que dá ao homem a consciência de si mesmo, do seu Eu verdadeiro. Portanto, o que o homem atribui a Deus é a sua própria essência externalizada, liberada e adorada como se fosse algo fora de si mesmo, é o ser do homem divinizado, é o seu próprio ser liberto das contradições impostas pela sua condição humana. Assim a teologia é uma antropologia.

Em sua obra A Essência do Cristianismo, tratando da essência do homem e da religião, Feuerbach afirma:

A essência do homem, em contraste com o animal, não é apenas o fundamento, mas também o objeto da religião. Mas a religião é consciência do infinito; assim, não é e não pode ser nada mais que a consciência que o homem tem da sua essência não finita, não limitada, mas infinita.

Para Marx, o que revela a essência do homem é a sua atividade produtiva. O homem, entre todos os seres, é o que foi destinado a trabalhar e arrancar da natureza para que ele possa existir, o que tem de produzir suas condições materiais de vida, enquanto os animais reproduzem sua existência de acordo com a natureza. Se, portanto, a sua essência está nessa capacidade transformadora, a história será a história dos seres humanos reais, portanto, as representações, os conceitos, as idéias são produtos da atividade humana, de acordo com o modo como é organizada a atividade produtiva.

Conforme a segunda tese de Marx contra Feuerbach, não é o pensamento que determina a realidade, e sim a realidade que condiciona o trabalho do pensamento.

Tese 2: A questão de saber se o pensamento humano pertence a verdade objetiva – não é uma questão de teoria, mas uma questão prática. É na práxis que o homem tem de comprovar a verdade, isto é, a realidade e o poder, o caráter terreno, do seu pensamento. A disputa sobre a realidade ou não-realidade do pensamento – que está isolado da práxis - é uma questão puramente escolástica.

Ao colocar como escolástica a questão da “querela” da realidade ou não do pensamento, Marx traz-nos de volta ao modo como os saberes são constituídos e a quem servem. Ao trazê-lo para o seu lugar — a determinação das condições da vida material, o trabalho humano de descoberta surge como uma condição ontologicamente existente. A prática é o saber socialmente construído, articulado.

Conforme Dantas,

Idéias e concepções de mundo nascem, portanto da historicidade de uma práxis concretamente determinada, seja como sua racionalização, sua autoconsciência, sua meta-narrativa, sua idealização, sua mistificação ou, no limite, como sua problematização, sua crítica, sua desconstrução e sua transformação.

Não há um estágio de ignorância nem de saber absoluto, há a necessidade de saber por natureza. O homem se acha em um ambiente no qual os saberes se desenvolvem mediados pela linguagem. A linguagem também é uma construção social e veicula o repertório de conhecimentos necessários ao seu desenvolvimento. Até questão do real, da percepção da natureza, que parecem ser independentes do homem, são frutos coletivos do modo como se desenvolveu a construção de um conceito. Segundo Marx,

A produção das idéias, representações, da consciência está a princípio diretamente entrelaçada com a atividade material e o intercâmbio material dos homens, linguagem da vida real. O representar, o pensar, o intercâmbio espiritual dos homens aparecem aqui ainda como efluxo direto do seu comportamento material. O mesmo se aplica à produção espiritual como ela se apresenta na linguagem da política, das leis, da moral da religião, da metafísica, etc .

Ou seja, esse desenvolvimento é compartilhado, socializado, evidentemente, tributário de todos os trabalhos desenvolvidos anteriormente por outros. Historicamente, os saberes nascem da necessidade humana de conservar a existência física, materializada no desenvolvimento das forças produtivas, que transformam as condições da vida material e impulsionam o desenvolvimento do pensamento na direção das novas necessidades que por sua vez gerarão o desenvolvimento de novas forças produtivas. Entre essas necessidades destaca-se a necessidade de liberdade de pensar criativamente. Essa é a práxis do pensamento do qual Marx fala em O Capital, daquilo que necessariamente é o desenvolvimento da capacidade de transformação da vida humana que é o trabalho em si mesmo, trabalho - atividade produtiva que é a própria essência do homem.

Mas esse esforço situar-se-á sempre no reino das necessidades. Além dele começa o desenvolvimento das forças humanas como um fim em si mesmo, o reino genuíno da liberdade, o qual só pode florescer tendo por base o reino da necessidade.

O desenvolvimento das forças humanas como um fim em si mesmo, supra-citado, leva ao homem a libertação do domínio das forças da natureza que o esmaga e que ele atribui a seres sobrenaturais. Se buscarmos a gênese das religiões, e avaliarmos a relação do homem com a natureza, concluiremos que o trabalho do homem nas comunidades primitivas é distinto da noção de trabalho que temos hoje; o trabalho faz parte da vida como uma condição ligada a sua necessidade de assegurar as condições de sua existência material. A religião é a expressão orgânica das condições da produção e de sua organização social. As terras e os meios de produção, pertencendo à comunidade estruturavam as condições de vida nas comunidades primitivas. A consciência mítico-religiosa nasce do sentimento de fazer parte de um todo, as formas que manifestam essa consciência variam de comunidade para comunidade.

Tese 8: Toda vida social é essencialmente prática. Todos os mistérios que levam a teoria ao misticism(o) encontra a sua solução racional na práxis humana e no compreender desta práxis.

Ao percorrer o caminho que levou a formação das classes dominantes, particularmente das castas sacerdotais, é que vamos entender as formas de dissolução das comunidades primitivas e como as religiões se converteram em instrumentos de dominação. As causas da dissolução das comunidades primitivas se encontram na super-população motivando as guerras de conquista e defesa, e conseqüentemente, o nascimento da mão-de-obra escrava; a incorporação da cultura do povo escravizado; a divisão social do trabalho, o aparecimento de classes e suas relações de poder. O desenvolvimento do comércio determinou o aparecimento da moeda e da escrita. Como regulador dos interesses surge o Estado legitimando a sociedade patriarcal fundada em relações de força e poder, submetendo a mulher à condição de serva do homem. O que vemos, enfim, é a separação sistemática entre a produção e do trabalho, dando origem à exploração do homem pelo homem, a divisão do trabalho entre manual e espiritual e, naturalmente, sistematização de conhecimentos religiosos como forma de controle social determinado pela casta sacerdotal. Em alguns casos, como no Ocidente, a religião dos escravos ao se tornar a religião oficial do império açambarca todas as áreas do conhecimento ditando o modo de produção social da vida pelos séculos seguintes.
Inequivocamente,

Os pensamentos da classe dominante são também, em todas as épocas, os pensamentos dominantes, em outras palavras, a classe que é o poder material dominante numa determinada sociedade é também o poder espiritual dominante. A classe que dispõe dos meios de produção material dispõe também dos meios da produção intelectual, de tal modo que o pensamento daqueles aos quais são negados os meios de produção intelectual está submetido também à classe dominante. Os pensamentos dominantes nada mais são do que a expressão ideal das relações materiais dominantes; eles são essas relações materiais dominantes consideradas sob forma de idéias, portanto a expressão das relações que fazem de uma classe a classe dominante; em outras palavras, são idéias de sua dominação.

Ao pensar sobre o surgimento da Filosofia, compreendemo-lo não como um “salto”, “um milagre grego” e sim, como fruto das condições materiais necessárias ao desenvolvimento das condições propícias para a investigação da natureza. É fundamental distinguir essa possibilidade como condição humana e também os seus produtos: a sistematização, a atividade, o verbo, a criação humana. As vertentes filosóficas e científicas que compõe a História do Pensamento não é trabalho de mentes privilegiadas motivadas pelo desejo de conhecer pura e simplesmente, note-se que os filósofos são homens livres que dispõe do tempo livre necessário à investigação da natureza. A filosofia, então, aparece como possibilidade da atividade de pensar e sua força não está na elaboração sistematizada, mas no vigor da própria atividade, o que não deve ser confundida com metodologia filosófica.

É interessante notar que nos primórdios da história da filosofia ocidental não há acúmulo de conhecimento. Cada pensador compõe o seu próprio sistema, porque enxerga a realidade como um todo e o que se busca são explicações para essa unidade na diversidade. Interessam as questões sobre a natureza, sobre o homem e sobre o conhecimento em si mesmo, daí o desenvolvimento da física, da ética e da lógica, cuja noção desses saberes é desenvolvida pelos gregos. Os filósofos gregos distinguiam-se pela sua capacidade de promover a articulação entre os saberes já produzidos e, ao mesmo tempo, dominar as ciências dos homens livres de sua época que decidiam sobre os rumos da cidade e teorizar sobre tudo o que pudesse ser conhecido em sua busca pela verdade. Historicamente encontraremos também os filósofos gregos em atividade demitificadora, apresentado explicações lógicas e racionais para os saberes constituídos, explorando os limites dos saberes de seus contemporâneos, expondo as contradições das tradições. O filósofo, na cultura grega, é o homem que atingiu um alto grau de liberdade e o seu ideal de vida é a busca pela sabedoria, organizando uma compreensão do mundo que traga em si mesma a possibilidade de crítica dos saberes produzidos, por isso não se move por interesses particulares.

Todavia, o desafio lançado por Marx na sua última tese contra Feuerbach leva-nos a algumas considerações sobre o trabalho do filósofo.

Os filósofos têm apenas interpretado o mundo de maneiras diferentes, a questão é transformá-lo.

Quando o filósofo se limita a interpretar o mundo, legitima o discurso que controla não apenas a produção material, mas também a produção imaterial, entendida como todo gênero de conhecimento, arte, e mantém as estruturas sociais vigentes. O trabalho do filósofo é essencialmente transformador, porque põe em relevo o trabalho do trabalho do homem e desnuda as condições que submetem um homem a outro, entenda-se filósofo como o que, independentemente da validação acadêmica, ama o conhecimento e questiona a ordem estabelecida. A práxis filosófica mostra a essência do homem no trabalho que realiza e traz à luz as condições para que ele possa construir sua própria identidade, e isso depende das condições que determinam o exercício de sua atividade produtiva. O trabalho do filósofo é questionar o modo de produção que reduz o homem a mero objeto, alienado de sua condição de sujeito do processo produtivo, desumanizado, cindido em seu próprio ser e em sua relação com os outros homens.

O trabalho e a existência humana são indissociáveis por isso o trabalho do pensamento é clarificar essa relação para que o homem possa reconhecer que é o seu trabalho que lhe proporciona não só os meios de satisfazer as necessidades básicas de sobrevivência, mas também a estruturação psíquica, a transformação do ambiente em que vive e também a realização pessoal. Vai além de uma ocupação propriamente dita, é o ambiente social para os adultos, por isso as condições de trabalho são determinantes na qualidade de vida. Condições de trabalho significam segurança, oportunidades de crescimento profissional, descanso, salários justos, saúde, desenvolvimento de suas capacidades criativas. A qualidade de vida como é posta no nosso modo de produção capitalista é uma falácia mascarada pelo conceito de resposta às necessidades psicológicas do trabalhador, uma vez que é impossível satisfazer a essas necessidades psicológicas porque o trabalho não é livre, e até o suposto lazer está permeado pelos modos de direcionamento do capital, Entre essas necessidades, está a de assegurar o próprio crescimento e o de sua família.

O trabalho pode ser considerado um fator de sofrimento, ao transformar-se em um elemento restritivo à realização humana, à liberdade, à expressão da subjetividade, nesse caso, não é só fonte de alienação, mas de sofrimento pessoal, de péssima qualidade de vida, pois, a não-sublimação de suas pulsões, ou seja, a não-satisfação pode levar o indivíduo ao adoecimento, manifestados, em muitos casos, nas patologias relacionadas com o trabalho. É fruto da divisão do trabalho, que separa trabalhador e trabalho, na qual o conjunto de valores que norteia a relação do trabalhador e trabalho caminha na direção da autodestruição, conforme podemos atestar no modo de ser do trabalho nas sociedades contemporâneas.

O médico Herval Pina Ribeiro faz uma relação entre o capitalismo industrial e os modos de adoecimento da classe trabalhadora a que ele denomina violência explícita ou oculta no trabalho. A violência explícita é caracterizada pelo atingimento direto do corpo do trabalhador, e isso vai desde os baixos salários que impõem as enfermidades decorrentes da má nutrição, das péssimas condições de vida, da inalação de resíduos tóxicos, até as tensões e pressões que lesionam os músculos, olhos, a pele, as articulações, os nervos, o cérebro, o psiquismo. A violência oculta é evidente nos modos de adoecer e morrer do trabalho “uma violência abrandada, mais sutil, oculta e ocultada, tomando como exemplo os bancos, o trabalho e a categoria bancária”.

Segundo Ribeiro,

O que determina a ocupação ou profissão é a necessidade de o trabalhador colocar-se no mercado de trabalho para prover a subsistência. Não há escolha, e se não há, a auto-responsabilização por “expor-se” no exercício de determinado trabalho é um mito. Não se é mineiro, ceramista, operário da construção civil, metalúrgico e bancário porque se quer, mas porque se precisa e essas são as ocupações possíveis. Por seu caráter nocivo, uma série de substâncias manipuladas ou produzidas no trabalho têm efeito imediato e não poupam ninguém.

No caso das doenças de trabalho há a insistência de se estabelecer a relação entre a causa material e o efeito. Isso tem por intenção, normalizar as relações entre capital e trabalho e diminuir os efeitos na saúde do trabalhador, no meio-ambiente e à população. Essas relações de causalidade são estabelecidas com base em níveis de exposição máxima, fixadas por técnicos e pesquisadores dos órgãos governamentais responsáveis pelo trabalho e previdência social. Isso por si só, já direciona o resultado do trabalho.

Após essas reflexões, não podemos deixar de pensar também nos que estão impedidos de trabalhar seja por enfermidades, deficiências incapacitantes ou do desemprego estrutural, que particularmente considero a maior chaga social. A miséria, em toda sua extensão, exprime o modo de divisão do trabalho em nossa sociedade e revela outra face ainda mais cruel: um círculo vicioso a arrastar milhões de famílias, que por não terem o acesso ao direito básico de asseguramento da vida por meio da atividade produtiva, perpetuam a própria humilhação em seus descendentes. É lamentável que crianças — o futuro da humanidade, velhos — mãos que construíram o hoje, gestantes — que trazem o amanhã em seu ventre, homens válidos — que passam dias em extensas filas a procura de trabalho vivam sem o mínimo de controle sobre a própria vida, cresçam na incerteza do futuro e constituam a grande massa dos excluídos tanto nas nações pobres, quanto nas nações ricas.

Repensar o que chamamos civilização é o próximo passo em direção a isso é a garantia do futuro da humanidade por meio de ações que favoreçam a prosperidade para todos, a sustentabilidade e a segurança, por meio de um esforço conjunto de todas as sociedades e culturas, do contrário, as gerações futuras estarão comprometidas. E isso só pode ser efetivado a partir da valorização da capacidade de ajuda mútua que os seres humanos devem uns aos outros, mas também na previsão e na provisão da satisfação das necessidades básicas do ser humano, extensivamente aos demais seres da Terra. Desse ponto de vista, o planeta deixa de ser uma fonte geradora de recursos para ser uma mãe generosa que nos alimenta a vida com a sua própria vida. Isso é assegurar o direito mais básico, o direito à vida, que se abre para o leque dos direitos individuais e coletivos.

Direitos implicam em responsabilidades, é óbvio que numa sociedade individualista ao extremo os direitos humanos não podem ser assegurados, porque a responsabilidade individual é a base para a preocupação com o outro.

Felizmente, cada apogeu traz em seu bojo a própria decadência e cada crise é prenúncio de uma nova oportunidade. O mal-estar de nossa civilização, nauseada de si mesma e eivada de contradições, revela as rachaduras provocadas pela própria insustentabilidade e favorece à reflexão. É por isso que como uma luz tênue a esperança estende seus braços e se deixa alcançar pelos que trabalham por um mundo melhor. Até ontem o trabalho era a expressão da própria inferioridade espiritual, pouco a pouco, por meio das conquistas das classes trabalhadoras, do avanço das ciências humanas e da reflexão sobre a atividade humana, o trabalho foi deixando de ser mero instrumento do homem para tornar-se humanidade do homem, aquilo que lhe é mais próprio.

Mas o homem não se faz sozinho e todo esse impulso renovador deve ser traduzido em consciência política e social e deve ser direcionado para a mobilização de todos os setores da sociedade para que seus componentes possam determinar como deve ser escrita a sua própria história, apenas desse modo, poder-se-á dizer que o trabalho revela a essência do homem, conferindo sentido a sua existência. Desse trabalho que é o homem fazendo-se a si mesmo. Esse é o trabalho do trabalho do homem.

Quero concluir esse trabalho com uma afirmação de Antunes:

Uma vida cheia de sentido fora do trabalho supõe uma vida dotada de sentido dentro do trabalho. Não é possível compatibulizar trabalho assalariado, feitichizado e estranhado com tempo (verdadeiramente) livre. Uma vida desprovida de sentido no trabalho é incompatível com uma vida cheia de sentido fora do trabalho. Em alguma medida, a esfera fora do trabalho estará maculada pela desefetivação que se dá no interior da vida laborativa.

Enfim, o trabalho do trabalho do homem é a autoprodução de sua consciência.


BIBLIOGRAFIA

ANTUNES, Ricardo. Os sentidos do trabalho. Boitempo. São Paulo. 2003

DANTAS, Rodrigo. Da Colonização e da Emancipação do Pensamento. UnB.2003

FEUERBACH, Ludiwig. A Essência do Cristianismo. trad. José da Silva Brandão. Papirus. São Paulo.1997

MARX, Karl, ENGELS, Friedrich. A ideologia alemã e teses sobre Feuerbach.. Editora Moraes. São Paulo.1984

MARX, Karl. Manuscritos econômico-filosóficos e outros textos escolhidos. Trad. José Carlos Bruni. Coleção Os Pensadores.1974.

MENDES, Ana Magnólia. Valores e Vivências de prazer-sofrimento no contexto organizacional. Tese de doutoramento em Psicologia. Brasília; Universidade de Brasília, 1999.

REALE, Giovanni, ANTISERI, Dario. História da Filosofia. Vol. III. Paulus. São Paulo.1991.

RIBEIRO, Herval Pina. A violência oculta do trabalho. Fiocruz. Rio de Janeiro.1999.


Terezinha de Jesus é escritora, palestrante, orientadora filosófica. Os temas de suas reflexões são o problema da dor, terapia do autoconhecimento, família, ética e espiritualidade.

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