Uma das coisas mais árduas e difíceis é a
percepção do quadro total da vida. A vida é um
contínuo movimento de relações, e só quando
compreendermos essas relações como um todo e não
fragmentariamente, poderemos resolver os problemas individuais. Por “problemas”
entendo as dificuldades que se nos apresentam na vida
— a falta de mútua compreensão, as inumeráveis
dúvidas e questões, o desequilíbrio, a luta
constante para nos ajustarmos a um padrão de crença,
uma experiência, uma dada norma social.
Todas essas lutas
criam problemas, dificuldades, não? Só conhecemos a
vida como uma série de dificuldades emocionais, psicológicas,
ou concretas, e nunca somos capazes de resolvê-las totalmente.
Se estamos verdadeiramente atentos ao que se passa em nós
mesmos, sabemos que, ao contrário, preferimos fugir a essas
dificuldades. Nunca nos habilitamos a considerar as nossas dificuldades
com clarividência, jamais examinamos o padrão de nossa
existência em sua totalidade. É verdade que, quando
os nossos problemas se tornam agudos e surge uma crise, tornamo-nos
cônscios deles; mas, mesmo então, não sabemos
resolvê-los, nem revelamos a intensidade, a clareza, ou o conhecimento
necessário a solucioná-los.
Nesta manhã, falarei sobre se é possível vivermos
livres desses problemas na existência cotidiana. Quando a mente
está enredada em algum problema, esteja, ou não consciente
dele, esse problema, com efeito, prejudica a clareza do pensamento,
prejudica a nossa atividade diária. Parece-me, pois, importantíssimo
compreender esses problemas e viver livre deles, em vez de fugir-lhes
ou tentar resolvê-los definitivamente. Precisamos primeiramente
estar cônscios dos problemas, saber quais são eles — e
mesmo isso exige uma certa atenção e percebimento. Para
resolvermos os nossos problemas, precisamos conhecê-los. Nada
adianta procurar um analista, um confessor, esta ou aquela pessoa,
pois isso só indica que estamos fugindo do fato, de nossas reais
dificuldades.
Assim, enquanto examinamos esta questão,
espero estejais escutando o que digo, não como simples declarações
objetivas, verbais, porém com o fim de bem perceberdes os
vossos problemas pessoais.
Sabeis o que entendo por “um problema”? É uma
coisa que não tendes compreendido, algo que vos corrói
a mente e o coração, uma tortura que se repete e torna
a repetir-se, e que temeis. É como um sonho que volta todas
as noites, um sonho que vos influencia as atividades do dia e do
qual desejais livrar-vos, ou para o qual buscais uma resposta, uma
interpretação. Ou temeis a morte, a pobreza; temeis
não ser amados, temeis as vossas relações. Ou
estais sendo impelidos pela ambição, pela vaidade e
existe em vós o sentimento de que nunca alcançareis
o preenchimento. Temos uma enorme quantidade de problemas, alguns
dos quais escapam ao nosso percebimento, e não conhecemos
sequer os limites de tais problemas. É, sem dúvida,
necessário compreender que a mente que está
sendo torturada por problemas — não importa se problemas
insignificantes, se problemas intensos, vitais, significativos — não
pode ir longe. Os problemas, quaisquer que sejam eles influem inevitavelmente
em nosso pensamento, nossa atividade, moldam a nossa vida; e, a menos
que o indivíduo esteja verdadeiramente livre deles, não
poderá ir muito longe.
Nossos problemas se relacionam com o viver de
cada dia; a atividade diária, sexo, amor, o emprego, o medo
de não ser amado, de ficar na solidão, o sentimento
de extremo desespero, o tédio que nos vem de uma vida sem
nenhuma significação. Sem dúvida, o indivíduo
precisa estar bem cônscio de todas essas coisas, porque elas
influenciam o rumo de nossas atividades. Não temos possibilidade
de fugir delas, e não podemos ter problemas mundanos, problemas
diários, e ao mesmo tempo querer encontrar uma vida interior
profunda, uma vida espiritual —
ou como a quiserdes chamar. A vida mundana e a chamada
“vida espiritual” não estão em dois níveis
separados, pois se acham intimamente relacionadas entre si. Se não
compreendemos os problemas diários da vida e deles não
estamos livres — por mais insignificantes, desprezíveis,
tirânicos, feios que sejam — se não temos essa
liberdade, a nossa busca de uma vida interior, espiritual, não
tem significação nenhuma.
Pode-se ver que isso é perfeitamente racional,
lógico. Não é simplesmente uma coisa que eu
estou afirmando e que podeis aceitar ou rejeitar; é um fato.
Se nossa mente não está libertada de preocupações
financeiras, preocupações sobre se somos amados ou
não, sobre se nos tornaremos famosos, no mundo, ou não,
e as concomitantes tentações, degradações
e brutalidade; se não compreendemos todos os problemas de
nosso viver diário, nossa mente é completamente incapaz
de penetrar com profundeza em algo que exige nossa integral energia,
algo que não pode ser procurado, que não tem causa
nem motivo.
Precisamos, pois, estar bem conscientes dos problemas
diários, das cotidianas atividades. E espero que, juntamente
comigo, os estejais percebendo bem, porque, se assim não for,
não poderemos ir muito longe, nesta manhã ou, mesmo,
em todo o decurso destas reuniões. Desejo investigar profundamente,
porém vós não podereis fazer o mesmo se vossos
problemas vos estão sufocando, cegando. E, se o fizerdes,
isso será uma mera fuga, um esforço verbal em demanda
de um certo mito sem realidade alguma.
Ora, se estamos cientes desses problemas, que
devemos fazer? Em primeiro lugar, que se entende por
“estar cônscio” — estarmos cônscios
de nossos problemas? Tomai em consideração vosso problema
pessoal, pelo qual estais sendo torturados. Quando dizeis “Sei
que tenho um problema”
— que entendeis com isso? Quereis dizer que tendes uma dificuldade,
uma dor, ou um prazer que temeis não continue. No esforço
para evitar aquela dor ou manter a continuidade daquele prazer, dizeis: “Estou
cônscio de meu problema.” Ora, que se entende por “estar
cônscio dele”? Percebeis a existência do problema
como sabeis da existência deste microfone? Trata-se de uma
coisa exterior a vós, que estais observando, ou dela estais
ciente sem que nenhum espaço exista entre vós e essa
coisa que observais, isto é, sem a divisão em “observador”
e “coisa observada”? Se sois o “observador”,
neste caso estais tentando fazer algo em relação
à coisa observada; desejais alterá-la, desejais criar
uma situação em que essa coisa não mais vos
cause dor, ou vos proporcione a continuidade do prazer.
Por conseguinte, muito depende da maneira de
considerar o problema, de como o percebeis, de como o conheceis.
Em geral, o conheceis como quem está
de fora a olhar para dentro, e isso significa que o que estais olhando é diferente
da imagem que tendes de vós mesmos. Cada um de nós
tem uma certa imagem de si próprio, em geral uma imagem algo
lisonjeira, e dessa base é que olhamos a coisa que nos causa
dor ou prazer.
Por favor, acompanhai o que estou dizendo, pois,
se o fizerdes, isso irá tornar-se muito interessante, à medida
que formos penetrando mais, como espero o façamos nesta manhã.
Tendes, pois, uma imagem de vós mesmos — como
sois ou como deveríeis ser ou deveis
ser — e dessa imagem olhais a coisa que chamais “um
problema”. Há, pois, a imagem e o problema; e procurais
então comparar o problema com a imagem ou o interpretais em
conformidade com o padrão estabelecido por essa imagem. Não é assim?
Tendo uma certa imagem de vós mesmos, com essa imagem é que
olhais o problema; há por isso uma divisão, uma contradição
entre o problema e o que pensais ser ou o que pensais deveríeis
ser; há um constante conflito entre aquilo que vossa imagem
representa, e o problema que contradiz essa imagem.
Posso prosseguir? Está claro até aqui?
Pois bem. O problema nunca será
resolvido enquanto a imagem existir — a imagem do que deveríeis
ser, ou a imagem de si própria que a mente criou por efeito
do saber, da história, da tradição familiar,
de todas as formas de experiência. Estais cônscios, não
da imagem, porém do problema, enquanto o que aqui estamos
tentando não é resolver o problema, porém, sim,
compreender a estrutura da imagem; porque, se nenhuma imagem temos
de nós, podemos resolver o problema.
O indivíduo, em geral, tem de si próprio
a imagem de que é um ser humano extraordinário, ou
um homem mal sucedido na vida, um infeliz que precisa preencher-se,
ou um homem vaidoso, ambicioso — bem sabeis que imagens a maioria
das pessoas têm de si próprias. Pensam ser Deus, ou
pensam não ser Deus, porém apenas ambiente, que são
isto ou aquilo. Têm uma dúzia de imagens de si próprias,
ou apenas uma imagem predominante. Ora, se eu tenho uma imagem de
mim mesmo, essa imagem terá de contradizer os fatos da existência
diária, e só sou capaz de olhar esses fatos com os
olhos dessa imagem. Por conseguinte, o problema
é criado pela imagem e não pelo próprio fato.
Escutai o que estou dizendo; não o rejeitei
não o aceiteis, não o absorvais: olhai-o, simplesmente.
Ora, por que formo essa imagem de mim mesmo?
Vejo que enquanto eu tiver qualquer conceito, imagem, conclusão
a meu respeito, os problemas continuarão existentes. Assim,
já não estou interessado no problema, na dificuldade;
apenas me interesso em compreender por que tenho essas imagens, conceitos
e conclusões sobre a minha pessoa. No Oriente, muita gente
tem a idéia de que é
Deus, têm uma infinidade de conceitos; e aqui, no Ocidente,
tendes também vossos conceitos, vossas imagens. Ide ao mundo
comunista, e vereis que também lá eles têm suas
imagens. Ora, por que formamos essas imagens, esses conceitos?
Faço-vos esta pergunta e peço-vos
compreendê-la. É uma pergunta fundamental e não
uma pergunta superficial. Em geral, nunca fazemos a nós mesmos
uma pergunta fundamental, mas agora a estamos fazendo.
Por que razão eu, que vivo há quarenta,
cinqüenta, sessenta ou não importa quantos anos — por
que razão mantenho esse depósito repleto das coisas
que penso, que sinto, que sou, que deveria ser, essa enorme acumulação
de conhecimento e experiência? E, se eu não o fizesse,
que aconteceria? Compreendeis? Se nenhum conceito eu tivesse a respeito
de mim mesmo, que me sucederia? Ver-me-ia como que perdido numa floresta,
não é
verdade? Sentir-me-ia incerto, aterrorizado com a vida. Por isso,
formo uma imagem, um mito, um conceito, uma conclusão a meu
respeito, porque, sem essa estrutura, minha vida se tornaria, para
mim, sem significação, incerta, medonha. Não
haveria segurança. Exteriormente, posso estar em segurança,
ter emprego, casa, etc., porém desejo estar tam bem em perfeita
segurança interiormente; e é esse desejo de segurança
que me impele a formar essa imagem de mim próprio — imagem
puramente verbal, isto é, não tem realidade nenhuma, é
um mero conceito, uma memória, uma idéia, uma conclusão.
Vejo isso agora como um fato. Dele estou consciente. Continuai, por
favor, a acompanhar-me, trabalhemos juntos. Sei como formei a própria
imagem, quer por esforço consciente, quer inconscientemente,
através das inumeráveis influências da sociedade,
da religião organizada, dos livros. Sei-o agora. Eu a formei,
e vejo por que a formei. A sociedade o exige; e, também, independente
da sociedade, desejo estar em segurança. A sociedade me ajuda
e eu também me ajudo a ser essa imagem, essa idéia,
essa conclusão; de todo esse processo estou bem ciente.
Agora, desejo saber o que se entende por “estar
cônscio de alguma coisa”. Estais cônscios de quando
tendes fome, ninguém vo-lo precisa dizer; não é uma
experiência
“de segunda mão”. Não é
coisa aprendida num livro. Nenhum instrutor vos demonstrou que estais
com fome; não houve interferência de nenhuma filosofia,
de nenhum método, de nada. Há em vós uma reação
interna, a qual chamais “fome”; trata-se de uma experiência
de “primeira mão”. E percebeis a estrutura, o
significado e a natureza dessa imagem do mesmo modo que estais conscientes
da fome? Entendeis o que quero dizer? Trata-se de algo que por vós
percebestes, descobristes, e que ninguém vos precisa dizer;
de um percebimento individual e não de uma descrição
por mim feita e por vós aceita? Quando tendes dor de dentes
ou de outra natureza, trata-se de uma coisa que é vossa. De
modo idêntico, se estais cônscios daquela imagem como
algo que vós mesmos descobristes, trata-se então de
um descobrimento que ninguém vos pode tirar, nem dissipar,
nem aumentar.
É o fato. Outros poderão
descrevê-lo, acrescentar-lhe mais detalhes, mas o fato vos
está presente. Podemos prosseguir?
Ora, que acontece quando percebo o fato de que
formei uma imagem de mim próprio —
quando dele estou tão consciente como da fome? Estamos acostumados
a fazer esforços. Desde a infância estimulam-nos a forcejar,
a lutar, para termos mais êxito do que outro qualquer. Mas
aqui não há necessidade de esforço algum, porque
não há nada a exigir-nos esforço. Entendeis?
Estou simplesmente a observar o fato de que tenho uma imagem de mim
próprio. Todo esforço que faço para alterar,
melhorar ou desfazer essa imagem consiste em ajustar-me a outra imagem
que tenho de mim mesmo. Está claro? Se faço um esforço
para dissipar ou destruir a atual imagem, esse esforço se
origina de uma outra imagem que formei de mim, a qual diz que a imagem
atual deve deixar de existir.
Estou a hipnotizar-vos, ou estamos trabalhando
juntos?
Como disse no começo, necessitamos de
liberdade, não simplesmente de estarmos livres de umas poucas
ansiedades, estúpidas e insignificantes, etc., porém
de liberdade completa. E a liberdade não é uma
reação. Toda reação é meramente
uma revolta entre as paredes da prisão; não é
liberdade. A mente que se vê tolhida por problemas jamais pode
ser livre. Quer se trate do problema da morte, quer do problema relativo
a vossos sonhos — não importa qual seja o problema;
enquanto ele existir não haverá liberdade, O problema é absolutamente
sem importância, pois o que importa é a imagem que tendes
de vós mesmos. Se nenhuma imagem tendes, se a mente está completamente
livre de todas as imagens, estais então aptos a resolver qualquer
caso que se apresente, e ele não constitui problema algum.
A mente, pois, está cônscia de ter
criado uma imagem de si própria, e que todo esforço
para dissipar, dissolver ou fazer alguma coisa a respeito dessa imagem
nasce de uma outra imagem, existente num nível muito mais
profundo e que diz:
“Não devo criar nenhuma imagem.” Todo esforço
no sentido de alterar a imagem atual procede de outra imagem, mais
profunda, de uma conclusão mais profunda. Vejo que isso é um
fato e, por conseguinte, minha mente não está fazendo
esforço algum para dissipar a imagem. Estais-me seguindo?
A mente está totalmente cônscia da imagem, sem ter nenhum
desejo, sem fazer nenhum esforço, sem sofrer nenhuma alteração;
está simplesmente cônscia dela, simplesmente a olhá-la.
Olho para este microfone, e não posso fazer coisa alguma a
respeito dele. Ele existe, foi feito. De modo idêntico, a mente
olha a imagem, a conclusão que tem a respeito de si mesma,
sem fazer nenhuma espécie de esforço; esta é a
atenção real. Nessa observação descobrireis
que existe uma disciplina tremenda —
não a estúpida disciplina de ajustamento. Visto que
não faz nenhum esforço para alterar a imagem, a própria
mente é essa imagem. Não existem separadas a mente
e a imagem, porém a mente é a
imagem. Todo movimento por parte da mente para identificar-se com
essa imagem ou destruí-la é criado ou impulsionado
por outra imagem. A mente, por conseguinte, percebe que ela própria é a
criadora da imagem.
Se percebeis esse fato, realmente, a imagem perde
então toda a importância. A mente está então
apta a resolver qual quer problema, qualquer crise que surja, sem
o auxílio de nenhuma conclusão prévia, emanada
da imagem. A mente está agora livre de todas as imagens e,
por conseguinte, não se acha numa posição estática,
sobre um pedestal — uma crença, um dogma, uma experiência
na forma de conhecimento
— de onde observa o problema. A mente, por conseguinte, pode
agora “estar completamente” com qualquer dificuldade
que se apresenta, sem considerá-la um problema. Só existem
problemas quando há
uma contradição. Mas, aqui não há
contradição alguma. Não tenho nenhuma imagem,
nenhum centro, nenhuma conclusão, de onde estou olhando; deste
modo, não há contradição e, portanto,
não há problema.
Como disse de início, a vida
é um movimento de relações, não só com
pessoas, porém com tudo — a natureza, dinheiro, idéias.
A vida é um movimento, e quando nos movemos com a vida, ela
não apresenta nenhum problema. E só quando se apresenta
uma situação estática, da qual estamos tentando
compreender, que a vida se torna um problema. A vida mundana é a única
vida que tendes de compreender, e não a vida espiritual. Quando
já não estamos sendo impelidos pela ambição,
pela avidez, pela inveja, quando já não buscamos fama,
e quando todas as coisas que constituem isso que chamamos “vida
mundana” estão em perfeita ordem, há então
um movimento totalmente diferente, que a mente não pode prever,
nem nele crer ou a seu respeito chegar a uma conclusão. Só existe
o movimento da vida, mas nós o dividimos em movimento mundano
e movimento espiritual, em vida exterior e vida interior. Fizemos
da vida interior uma coisa separada. Cansados da nossa vida mundana,
com seus horrores e brutalidades — bem sabeis de tudo o que
se passa — tratamos de evadir-nos, de estabelecer dentro em
nós uma “vida espiritual”
— o que é um grande disparate. Não podeis estabelecer
para vós mesmo uma vida espiritual sem terdes, primeiramente,
perfeita ordem; e ordem significa liberdade. Vereis, então,
que há uma vida totalmente diferente, uma vida não
criada pela mente — vida sem causa, sem fim, sem começo
— um movimento. Mas, o que quer que façais
— sentar-vos em qualquer posição, executar todos
os truques que quiserdes – nenhuma possibilidade tendes de
alcançar ou compreender aquele movimento, se não existe
completa ordem, quer dizer, se não estais livres da luta exterior
de cada dia – da dor, do sofrimento, da avidez, da ambição.
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