Pergunta: Não
pertenço a religião alguma, porém sou membro
de duas sociedades que me dão conhecimento e sabedoria espiritual.
Se as abandonar, como poderei alcançar a perfeição?
Krishnamurti: Se compreenderdes a futilidade
de todas as corporações religiosas organizadas, com
seus interesses monetários, com sua exploração,
com a completa estupidez de suas crenças baseadas na autoridade,
na superstição e no medo; se verdadeiramente alcançardes
o significado disto, então não pertencereis a nenhuma
sociedade ou seita religiosa. Imaginais que qualquer sociedade
ou livro vos pode dar sabedoria? Livros e sociedades podem fornecer-vos
informação. Se, porém, disserdes que uma sociedade
vos pode dar sabedoria, estareis simplesmente depositando nela
a vossa confiança e ela se torna vossa exploradora. Se a
sabedoria pudesse ser adquirida por meio de uma seita ou sociedade
religiosa, todos seriamos sábios, pois tivemos religiões
conosco por milhares de anos. A sabedoria, porém, não
se adquire por essa forma. A sabedoria é
a compreensão do fluxo contínuo da vida ou da realidade,
e somente é apreendida quando a mente está aberta
e vulnerável, isto é, quando a mente não mais
está embaraçada pelos seus próprios desejos
de auto-proteção, reações e ilusões.
Nenhuma sociedade, nenhuma religião, nenhum sacerdote, nenhum
líder vos dará, jamais, a sabedoria. É só
pelo nosso próprio sofrimento, ao qual tentamos escapar
aderindo a corporações religiosas e mergulhando em
teorias filosóficas; é
somente pela atenção à causa do sofrimento
e a como libertar-nos dele que a sabedoria nasce natural e suavemente.
Pergunta: Não são necessários
os sacerdotes para conduzir os ignorantes à retidão?
Krishnamurti: Por certo que não. Mas quem
são os ignorantes? Esta pergunta só
pode ser feita a cada um de vós e não a uma massa vaga
denominada ignorante. A massa sóis vós. Necessitais
vós de sacerdotes? Quem pode dizer quem são os ignorantes?
Ninguém. Portanto, sendo ignorantes, necessitais de sacerdote,
e pode um sacerdote conduzir-vos da ignorância à
retidão? Se meramente imaginardes que um indivíduo
ignorante, vagamente existindo em certo lugar e a quem não
conheceis, necessita de um sacerdote, então perpetuareis a
exploração e todas as manobras da religião.
Ninguém vos pode conduzir à
retidão exceto vós próprios, por meio de vosso
próprio entendimento, por meio de vosso próprio sofrimento.
Pergunta: Se a inteligência da maioria
das pessoas for tão limitada que elas não possam encontrar
a Verdade por si próprias, não serão os Mestres
e os instrutores necessários para mostrar-lhes o caminho?
Krishnamurti: Se simplesmente consideramos que
o não-inteligente necessita do inteligente, manteremos o não-inteligente
sempre em seu estado de não-inteligência. Se imaginardes
que um tolo necessita de um guia, um Mestre, criareis circunstâncias
para mantê-lo na idiotice. Se o homem inteligente percebe a
necessidade de ajudar a um idiota, não em direção
a um determinado sistema, crença ou dogma, porém de
auxiliá-lo a ser inteligente, então o não-inteligente
não será
explorado. Mas a questão não é se o ignorante
necessita de Mestres, de salvadores, mas se vós necessitais
deles. Questionando realmente esta necessidade, descobrireis que
ninguém vos pode salvar, que ninguém vos pode dar compreensão,
pois a compreensão reside em vosso próprio discernimento.
A inteligência não é
dádiva de Mestres e instrutores, porém faz parte da
vossa própria percepção e ação
criativas.
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