Pode a mente medíocre
“realizar” Deus? Não é isso, Senhor? Podeis
usar as palavras “realizar o seu preenchimento” — o
que quer que elas signifiquem. Pode a mente ser libertada, pode a mente
achar a Verdade, Deus? Senhor, tende a bondade de escutar. Pode a mente
medíocre, pequena, perturbada, a mente mesquinha, dividida,
vulgar, achar a Realidade? A Realidade é
coisa totalmente desconhecida. É uma coisa que só pode
existir momento por momento, e não uma coisa fixa num ponto,
onde eu possa ir apanhá-la. Se ela está fixa num ponto
para eu alcançá-la, ela é uma invenção
da mente. Criamos Deus à nossa imagem, não é verdade?
Todos os livros, todos os templos estão cheios dos produtos
da nossa mão — a palavra, a imagem ou o símbolo,
que a mente considera muito importante, porque tem medo de descobrir
por si mesma Pode uma tal mentalidade descobrir a Verdade ou “realizar
o seu preenchimento” o que quer que signifique “seu preenchimento”?
Pode a mente pequenina, que só
pensa em termos de “adquirir mais”, em termos de tempo — fazer
algo amanhã, alcançar alguma coisa na próxima
vida pode uma tal mente compreender o que é atemporal, aquilo
que está
além das exigências psicológicas temporais, oriundas
do desejo? Não pode, evidentemente.
Senhores, Deus não é uma coisa que se pode adquirir
como se adquire um terno de roupa ou uma virtude.
É algo incomparável, atemporal, inimaginável,
inefável: não podeis ir a Ele. Ele deve vir a vós,
e tão-somente quando o vosso espírito não
mais está buscando. Porque estais buscando, agora, com o
fito de adquirir, de ter conforto, com o fito de vos tornardes
algo; porque só pensais em termos de tempo, de desenvolvimento,
obtenção de resultados — não podeis
nunca saber o que é a Realidade. Mente assim,
é mente medíocre. Ela é capaz de inventar
frases, de falar a respeito de Deus, a respeito da Verdade. Essa
mente, porém, não pode ter a experiência da
Realidade. Quando a mente já
não compara, não adquire — só
a essa mente que está tranqüila, pode a Realidade manifestar-se;
e essa Realidade não é contínua, ela existe
de momento a momento. O que foi, não
é, e o que é não será. Senhores, isto
não são meras palavras. Quando examinardes realmente
o problema relativo a tudo o que acabo de dizer, descobrireis por
vós mesmos o que é ser criador. Tereis, vós
mesmos, a mente que já
não compara, já não adquire, a mente que ingressou
num “estado de ser” —
e nesse ser a Realidade penetra. A Realidade não
é sempre a mesma. Por conseguinte, a mente não pode
escrever ou falar sobre a Realidade, descrever a Realidade. A Realidade
não tem nenhuma atração. Não posso
dizer que ela me atrai. Por conseguinte,
é fútil e tolo falar a esse respeito.
Só quando a mente já não está
buscando, já não está exigindo, procurando,
desejando tornar-se alguma coisa só então a mente está tranqüila;
e esta tranqüilidade não é consciente; esta tranqüilidade
varia de momento a momento. A mente que só conhece a continuidade
não é tranqüila. Tudo isso exige muita paciência,
percebimento e autoconhecimento Esse autoconhecimento não é o
conhecimento de um certo “ego”, de que ouvistes falar
nos livros e dentro do qual fostes condicionado e educado; mas do
vosso “ego” de todos os dias, o “ego”
que procura, busca, deseja, adquire, que está descontente,
que corrompe, que é ávido em vão, e inventa
a hierarquia com o um de firmar cada vez mais o seu poderio. Tal é a
mente, que cumpre ser compreendida. E ela só pode ser compreendida
momento por momento, quando andais, quando falais. Vereis, se observardes
a linguagem com que falais ao vosso criado, quanto está
condicionada a vossa mente, inutilizada pela tradição;
esta mente nunca há de achar a Realidade. É
necessária uma revolução total do nosso pensar,
para que o atemporal possa acontecer.
Krishnamurti - 12 de dezembro de 1953 -
Do Livro: O Problema da Revolução Total - ICK |