Brasigóis Felício nasceu em Aloândia (Go) em 1950. Tem 20 livros publicados, entre obras de poesia, conto, romance, crônica e crítica literária. Em sua bibliografia destacam-se Hotel do tempo, poesia, (Editora Civilização Brasileira, l982); Monólogos da Angústia, contos, (Prêmio Bolsa de Publicações Hugo de Carvalho Ramos, Diários de André, romance censurado e apreendido em 1976, por ordem do ex-ministro da Justiça, Armando Falcão; Viver é devagar, crônicas, l998, Literatura Contemporãnea em Goiás, crítica literária, O tempo dos homens sem rosto, poesia, Editora Estação Liberdade, e Memória da solidão, contos, Coleção Karajá, da Agência Goiana de Cultura.
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Pessoas feridas nos ferem – em resposta, reagimos, nos tornando feridores. Pura reação automática que amplia as ondas de sofrimento inútil. Assim se formam círculos de ódio e medo, de raiva e de desespero. Que não cessam sua venenosa atividade, porque a ninguém ocorre tentar compreender as razões de quem os ataca. É preciso distinguir a diferença entre a pessoa e o que motiva seus atos. Shant Deva nos diz, no livro A arte de lidar com a raiva: “É culpa dos infantis serem magoados. Por terem raiva dos outros, elas próprias se apegam às causas de seu sofrimento”.
Construímos o terreno da nossa saúde (ou de nossas doenças) conforme as emoções que nutrimos. Há uma ciência das emoções, que precisa ser aprendida e praticada. Nossas emoções nos constituem – mas não somos nossas emoções, assim como não somos os pensamentos que nos habilitam a nos expressar neste mundo. Temos que aprender a filtrar a carga de emoções vazias e de pensamentos doentios que nos chegam de todos os lugares. A raiva não é o melhor caminho para se viver em permanente infelicidade. Mas, seguramente, é o mais daninho.
Se para muitos ser feliz é conseguir comprar coisas, não conseguir é se deprimir. Se não consigo realizar meus desejos de consumo, não consigo ser feliz – então tenho raiva de mim, e tudo farei para que os outros também não consigam. Shant Deva nos alerta: para escapar ao círculo vicioso gerador de infelicidade é preciso não alimentar o combustível do inimigo: a insatisfação mental, de não contentamento com quem somos, e com a realidade que vivemos. Para isto é essencial manter a mente em um estado de paz – que não é campo fértil para a sensação de falta e de infelicidade. Também meditar profundamente nas causas da infelicidade, e daquilo que nos traz infelicidade, lembra o psicólogo Marco Aurélio Bilibio, em palestra para a União Planetária.
Segundo Marco Aurélio, aumentamos o sofrimento pela maneira como reagimos à emoção venenosa que nos agrediu. Pois tudo o que nos acontece chega como uma fotografia da realidade, foca pálidos aspectos, não toda a realidade em si: “A mudança de enfoque é a única coisa que pode mudar uma situação emocional. Tudo é regido por outros fatores, nada é regido por si mesmo. Nossos inimigos, reais ou imaginários, ocupam um lugar no altar ao contrário de nossas vidas. Mesmo o pior dos inimigos é também vítima de sua ignorância e de sua incapacidade de lidar com a raiva. De verdade, ninguém pode nos ofender. Por um erro de percepção, nos sentimos agredidos em uma dimensão que é inofendível”.
É de urgência urgentíssima aprendermos a lidar com nossos estados de infelicidade mental. Os que não buscam fugir ao rebanho (ou ao bando) dos que vivem somente para a satisfação de seus desejos egoísticos dificilmente serão saciados, ou conhecerão a paz e o contentamento de se bastarem com o que é essencial. Sair desta caverna escura é a mais renhida luta – nela não há vencedor nem vencido.
Assim, deixando de ser oleiros insensatos, que vivem a fazer arabescos com a argila do nada, entramos na dimensão do amor e do cuidado, que nos liberta da prisão da raiva, e das emoções venenosas. Aquele que consegue não agir como bicho torna-se verdadeiramente humano. Shant Deva nos diz: “Quem vence a si mesmo tem mais valor do que um general que vence milhares de inimigos, em um campo de batalha”.
Brasigóis Felício
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