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Religiosidade Brasileira

O último senso do IBGE constatou que mais de 90% da população brasileira afirma acreditar em Deus. Há algum fenômeno psicológico que justifique o interesse pelas religiões?

O fenômeno psíquico da religiosidade no ser humano está ligado e interconectado a vários fenômenos: o cultural, o vazio existencial, à questão do sentido de vida, ao inconsciente coletivo, à história, às práticas rituais da família e da sociedade em que uma pessoa nasce e se desenvolve, e outros. A logoterapia, visão humanista/existencialista de Viktor Frankl nos fala de um espaço específico de Deus em cada ser humano, que pode e precisa ser ocupado somente por Deus para que a pessoa tenha sentido de vida (isto não pode ser chamado de fenômeno, pois, não pode ser observado empiricamente como os itens anteriores).

Olhando para o povo brasileiro e pensando em sua religiosidade, entendo pessoalmente que o acreditar em Deus se fundamenta especialmente sobre a sua cultura latina e jusuítica desde os seus primórdios, associada a uma expressão fortemente espiritualística dos escravos africanos que precisavam ancorar seu sentido de vida em alguma fé/valores, caso contrário, não sobreviveriam às dores da saudade, do estranho, das privações e maus tratos, etc. Há vários séculos os evangélicos contribuem muito em instalar uma fé cristã neste país através de seu zelo missionário. Além disto, o Brasil ficou relativamente incólume às devastações de guerras, as quais têm como conseqüência um ceticismo religioso e profundo questionamento da direção da história pela vontade e pelas mãos de Deus. Basta pensar nos pensadores existencialistas pós guerra como Jean Paul-Sartre, Nietzsche e muitos outros, que proclamaram a morte de Deus e conclamaram todas as pessoas a assumirem exclusivamente a responsabilidade pessoal sobre as suas vidas.

Alguns fatos novos instigam em nossa época à religiosidade: o pluralismo permite que cada um pense como quiser, e que cada um tenha a fé que melhor lhe convier; a ciência e a tecnologia também não preencheram as vidas dos brasileiros, portanto, há uma nova busca na espiritualidade; o Brasil está passando por algumas décadas de sofrimento econômico, tendo como conseqüência o empobrecimento de uma grande faixa da população, e esta foi abordada por religiosos que proclamaram sentido existencial no espiritual; o esoterismo e as alternativas terapêuticas souberam como utilizar os meios de comunicação para oferecer ao povo os seus lenitivos, e assim conseguiram alcançar muitíssimos corações vazios; a globalização e especialmente os valores propagados pela televisão brasileira tiveram como efeito o individualismo, onde cada um cuida de si como pode, gerando muita solidão, a qual é diluída através de uma expressão religiosa; as megalópoles deixaram as pessoas isoladas em meio à multidão, e a igreja lhes oferece algum sentimento de pertença, uma identidade; a motilidade das pessoas e das famílias de uma cidade para outra, em função de empregos, desarraiga milhares de pessoas, deixando-as sem vínculos familiares, de vizinhança e de amizade, assim, a igreja ocupa um espaço vital de relacionamentos.

Bem, certamente existem muitas outras questões que fazem do povo brasileiro um povo crente, no sentido de simplesmente acreditar em Deus.

Não será a religião o “ópio do povo”?

Não e sim!

Não, pois o ser humano é religioso por essência. Se ele não devota sua vida a Deus ou a deuses simbólicos, ele cria seus próprios deuses através de bens materiais, valores, fama, poder ou sexualidade. Ele pode venerar sua doença, seus estudos, seu cônjuge, seu cachorro de estimação e muitas outras coisas mais. Em termos psicológicos, e certamente também teológicos, estas práticas não são nada diferentes do que adorar a um deus. Mas, destitui o ser humano do Deus verdadeiro. Portanto, a religião que verdadeiramente religa com Deus, cumpre uma função vital na vida da cada pessoa.

Sim, porque muitas pessoas se escondem atrás de fachadas denominacionais, de uma constituição de crenças, agarrando-se em ditames teológicos e teóricos que pessoalmente não compreendem, deixando assim de resolver verdadeiramente seus conflitos, seus relacionamentos pessoais, matrimoniais e familiares complicados. Permanecem escravos de seus medos e de suas culpas.

Anônimo

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