SOBRE SOLIDÃO Krishnamurti
Acredito que a maioria de nós sabe o que é ser
solitário. Conhecemos esse estado quando todos os relacionamentos
foram cortados, quando nem o passado e nem o futuro têm
sentido, quando há uma completa sensação
de isolamento. Ainda que você esteja com um grande número
de pessoas, num ônibus cheio, ou simplesmente sentado
ao lado do seu amigo, do seu marido ou da sua mulher, essa onda
subitamente passa por você, essa sensação
de incrível vazio, um abismo, um vácuo. E a reação
instintiva é fugir dela.
Para
isso você liga o rádio, conversa, ou se filia a determinada
sociedade, ou prega sobre Deus, sobre a verdade, o amor e tudo
o mais. Você pode escapar através de Deus, ou através
do cinema; todos os modos de escape são o mesmo. E a reação
é o medo desse completo senso de isolamento e de fuga.
Você conhece todos os meios de fuga através do nacionalismo,
da pátria, dos filhos, do seu nome, da sua propriedade,
em nome dos quais você está disposto a lutar, a brigar,
a morrer.
Entretanto, se verificar
que todos os meios de fuga são o mesmo, e se você
realmente percebe o significado de escapar, você pode ainda
assim escapar? Ou melhor, existe fuga? E se você não
estiver fugindo, haverá ainda conflito? Você compreende?
É a fuga daquilo “que é”; é o
desejo de atingir algo diferente daquilo “que é”
que acaba criando o conflito. Assim, para que a mente possa ir
além desse senso de solidão, desse súbito
cessar de toda lembrança de qualquer relacionamento, onde
se inclui a inveja, o ciúme, o desejo de aquisição,
a tentativa de ser virtuoso e tudo o mais — ela deve primeiro
enfrentar isso, passar por isso, de sorte que o medo, em qualquer
forma que se apresente, se dissolva. Pergunto: pode a mente perceber
a futilidade de todos os meios de fuga através de uma fuga?
Então não haverá conflito, não é
verdade? Pois não haverá observador da solidão;
não haverá o vivencial da solidão. Você
está me acompanhando? Essa solidão é a cessação
de todo relacionamento; idéias não importam mais;
o pensamento perdeu todo o seu significado. Estou descrevendo,
mas, por favor, não se limitem a ouvir porque depois vocês
serão deixados com as cinzas. Afinal, o objetivo destas
conversas é realmente livrar desses terríveis emaranhados,
ter na vida algo mais que o conflito, algo mais que o medo, o
aborrecimento e a monotonia da existência.
Onde não existe
o medo há a beleza, não a beleza de que falam os
poetas, a que é pintada pelos artistas, e assim por diante,
mas algo bastante diferente. E para descobrir a beleza é
preciso passar por esse completo isolamento; ou melhor, você
não precisa passar por ele; ele está presente. Você
escapou dele, mas ele está aí, sempre a persegui-lo.
Está aí, no seu coração, na sua mente,
nas profundezas e recessos do seu ser. Você o encobriu,
escapou dele, fugiu; mas ele está aí. E a mente
precisa vivenciá-lo como uma purgação pelo
fogo. Pode a mente fazer isso sem uma reação, sem
dizer que se trata de um estado horrível? No momento em
que você tem uma reação, há o conflito.
Se você o aceita, ainda assim carrega o seu peso e, quando
o nega, o encontrará logo adiante. Sem nenhuma reação,
a mente é essa solidão; ela não
precisa passar por ela, é ela. No momento
em que você pensa em termos de superar isso e atingir algo
diferente, você de novo está em conflito. No momento
em que você diz, “Como irei superar isso, como deverei
realmente encarar isso?”, você está novamente
em conflito.
Assim, há o vazio,
há esta extraordinária solidão que nenhum
Mestre, nenhum guru, nenhuma idéia, nenhuma atividade pode
afastar. Você brincou com todas elas, experimentou todas
elas, mas elas não podem preencher este vazio; é
um poço sem fundo. Mas não é um poço
sem fundo no momento em que você o está experimentando.
Compreende?
Percebem, se a mente
ficar inteiramente livre de conflitos, totalmente, completamente
sem apreensões, sem medo e ansiedade, deve haver o experimentar
deste extraordinário senso de ter relacionamento com nada.
E daí decorre uma sensação de solidão.
Por favor, não imagine que você
a tem; é tarefa muito árdua. E é apenas então,
nesse senso de solidão em que não há medo,
que ocorre um movimento em direção ao imensurável,
pois então não há ilusão, não
há o produtor de ilusões, não há o
poder de criar ilusão. Enquanto houver conflito, haverá
poder de criar ilusão, e com a total cessação
do conflito todo medo terá cessado, e portanto não
há mais busca.
Fico a me perguntar
se vocês entenderam. Afinal, vocês todos estão
aqui por estarem procurando. E, se examinarem bem, o que estão
procurando? Estão procurando algo além desse conflito,
dessa desgraça, sofrimento, agonia, ansiedade. Estão
em busca de um meio de sair disso. Mas quando se compreende o
que foi dito, cessa toda a busca, o que é um estado extraordinário
da mente.
Sabem, a vida é
um processo de desafios e respostas, não é? Há
o desafio de fora — o desafio da guerra, da morte, de dúzia
de coisas diferentes — e respondemos. E o desafio é
sempre novo, mas nossas respostas são sempre antigas, condicionadas.
Não sei se isto está claro. No intuito de responder
ao desafio preciso reconhecê-lo, não é verdade?
E se eu o reconheço, o faço em termos do antigo,
então é o antigo, obviamente. Peço que percebam
isto, pois pretendo avançar um pouco mais.
Para um homem muito
voltado para dentro, os desafios de fora não mais interessam,
mas ainda assim ele tem seus próprios desafios interiores
e respostas. No entanto, estou falando da mente que não
está mais a procurar, e, portanto não mais está
tendo um desafio e resposta. Este não é um estado
satisfeito, que se contentou, acovardado. Quando você tiver
compreendido a significação do desafio exterior
e a resposta, e o significado do desafio interior que se atribui
a si mesmo e à resposta, e tiver percorrido tudo isso com
docilidade, sem perder meses ou anos com isso, então a
mente não mais está moldada pelo ambiente; não
é mais influenciável. A mente que atravessou essa
extraordinária revolução pode enfrentar qualquer
problema sem que este deixe qualquer marca, qualquer raiz. Então,
qualquer sentido de medo terá desaparecido.
Não sei até
onde me acompanharam nisso. Sabem, ouvir não é meramente
escutar; ouvir é uma arte. Tudo isso é parte do
autoconhecimento; e se alguém realmente ouviu e mergulhou
em si mesmo com profundidade, é uma purificação.
E aquilo que está purificado recebe uma bênção
que não é a bênção das igrejas.
Krishnamurti - Londres,
18 de Maio de 1961 – Sobre Relacionamentos – Ed. Cultrix