Ora, se
se reconhece que todos os meios de fuga são iguais,
e se percebe realmente a significação de
um dado meio de fuga, pode-se ainda fugir? Ou não
há mais fuga? E, se não estais fugindo,
há ainda conflito? Estais-me seguindo? É
a fuga ao que é, o esforço para alcançar
uma coisa diferente do que é, que cria o conflito.
Assim, para que a mente possa transcender esse sentimento
de solidão, essa súbita cessação
da lembrança de todas as relações,
as quais envolvem ciúme, inveja, ânsia de
aquisição, esforço para ser virtuoso
etc. — primeiro ela tem de enfrentá-lo, passar
por ele, de modo que o medo em todas as suas formas definhe
até desaparecer de todo. Dessa forma, pode a mente
perceber, num dado meio de fuga, a futilidade de todas
as fugas? Não há então conflito,
há? Porque já não há nenhum
observador da solidão: há só o experimentar
dela. Estais seguindo? Essa solidão é o
cessar de todas as relações; as idéias
já não têm importância; o pensamento
perdeu toda a valia. Estou descrevendo as coisas, mas
não vos limiteis a ouvir, pois, assim, ao sairdes
daqui, levareis somente cinzas. Afinal de contas, estas
nossas investigações tem por fim libertar
nos de todas estas terríveis complicações,
dar-nos na vida algo mais do que apenas conflito, medo,
fadigas e tédio.
Onde não existe o medo, está
a beleza — não a beleza de que falam os poetas,
aquela que os artistas pintam etc., porém coisa
bem diferente. E para descobrir a beleza, um homem terá
de conhecer esse isolamento completo — ou, melhor,
não terá de conhecê-lo, pois ele já
existe. Vós fugistes dele, mas ele continua existente
e vos segue sempre. Ele lá está, em vosso
coração e em vossa mente, nos mais profundos
recessos de vosso ser. Vós o encobristes, fugistes
dele; mas ele continua existente. E a mente tem de passar
por ele, como quem se submete à purificação
pelo fogo. Ora, pode a mente passar por ele sem reação,
sem dizer que é um estado horrível? No momento
em que há reação, torna-se existente
o conflito. Se vós o aceitais, continuareis debaixo
de seu peso; e se o rejeitais, tomareis a encontrá-lo
na primeira volta do caminho. A mente, pois, tem de passar
por ele. Estais-me acompanhando? A mente é então
aquela solidão, não precisa de passar por
ela; ela é a solidão. Quando pensais em
termos de “passar por uma coisa” para alcançar
outra, já estais em conflito. No momento em que
dizeis: “De que maneira devo passar pela solidão,
de que maneira devo olhá-la?” — nesse
momento já vos achais de novo em conflito.
Existe, pois, vazio, uma solidão
extraordinária que nenhum Mestre, nenhum guru ou
idéia, nenhuma atividade poderá afastar
de vós. Já andastes “mexendo”
com essas coisas, já vos entretivestes com todas
elas; mas elas não podem preencher esse vazio;
ele é um abismo sem fundo. Mas deixa de ser esse
“abismo sem fundo” no momento em que o experimentais.
Compreendeis?
Para que a mente possa ficar inteiramente
livre de conflito, total e completamente livre de apreensão,
medo e ansiedade, torna-se necessário o experimentar
desse extraordinário sentimento de não relação
com alguma coisa; daí provém o sentimento
de solidão. Não imagineis que já
o tendes; isso é muito difícil. Só
quando temos esse sentimento de solidão em que
não há medo é que existe o movimento
para o imensurável; porque então não
há ilusão, não há fabricante
de ilusão, não há o poder de criar
a ilusão. Enquanto existe conflito, existe o poder
de criar ilusão; e com a total cessação
do conflito, o temor deixa de existir completamente, e,
portanto, não há mais buscar.
Não sei se compreendestes.
Afinal, todos vós estais aqui porque andais a buscar.
E se examinardes isso, que é que estais buscando?
Estais em busca de algo existente além de todo
esse conflito, miséria, sofrimento, agonia, ansiedade.
Buscais uma saída. Mas, se se compreende isso de
que estivemos falando, cessa então toda a busca
— e esse é um extraordinário estado
mental.
Como sabeis, a vida é um processo
de desafio e reação, não? Temos o
desafio exterior: o desafio da guerra, da morte, de dúzias
de coisas diferentes, e reagimos. O desafio é novo,
mas todas as nossas reações são sempre
velhas, condicionadas. Não sei se isto está
claro. Para reagir ao desafio, eu preciso reconhecê-lo,
não? E se o reconheço, é porque o
interpreto em termos do passado; portanto, ele é
“o velho”, evidentemente. Vede bem isso, por
favor, porque desejo ir um pouco mais longe.
Para o homem que vive muito interiormente,
os desafios exteriores perderam toda a importância;
mas ele continua a ter seus desafios e reações
interiores. Porém, eu estou falando a respeito
da mente que já não busca, e, portanto,
já não tem desafio e reação.
E este não é um estado de satisfação,
de contentamento, um estado de placidez qual a de uma
vaca. Quando compreendemos o significado do desafio e
da reação exteriores, e o significado do
desafio interior que apresentamos a nós mesmos,
e a respectiva reação, e rapidamente passamos
por tudo isso — sem levarmos nisso meses e anos
— a mente, então, já não está
sendo moldada pelo ambiente; já não é
influenciável. A mente que passou por essa extraordinária
revolução pode enfrentar todo e qualquer
problema, sem que nenhum problema deixe marca nem raízes.
Desapareceu, então, todo sentimento de medo.
Não sei até que ponto
percebestes o que estive explicando. Notai que escutar
não significa apenas ouvir; escutar é uma
arte. Faz parte do autoconhecimento; e se uma pessoa escutou
realmente, e penetrou profundamente em si mesma, isso
é uma purificação. E o que foi purificado
recebe uma bênção que não é
a bênção das igrejas.
Krishnamurti - 18 de maio de 1961
– Do livro: O PASSO DECISIVO - Cultrix
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